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quarta-feira, 12 de junho de 2013

O mendigo [1] ilustrado


 Papo particular com Drummond
O mendigo [1] ilustrado


Não sabem o que é o inferno de passar todas as semanas três dias seguidos sem dormir, trabalhando numa REVAMP. Revamp é a reforma contínua de uma fábrica sem que ela pare de produzir: Os trabalhos se realizam nas interrupções para manutenção e aquela era enorme, lá em Cubatão numa época em que era o esgoto do mundo, de tão poluída. Por vezes, se os trabalhos de reforma demorassem até um dia mais, podia negociar-se com a produção da fábrica esse dia a mais para trocar outros equipamentos até então não previstos, mas planejados como alternativas. Trabalhar sem cochilar, sem tomar qualquer remédio ou droga exige força de vontade, determinação, e a atenção têm que ser redobrada para que não nos aconteça nada de grave subindo e descendo escadas de marinheiro, passando por debaixo de equipamentos, aspirando gases letais ou tocando num cabo energizado desencapado. O alívio vinha quando ia para casa descansar, completamente arrebentado. Havia, a meu nível, quem fosse para casa dormir, e voltasse de madrugada. Passava a mão numa estrutura suja de fuligem e graxa e passava no rosto. Mas os olhos não estavam fundos, havia 450 operários que nem os viam pelo empreendimento, testemunhas caladas porque em nada lhes atrapalhava a vida. Um dia foram contar que o sujeito roubava rolos de fios de cobre e cabos além de outros utensílios. Descobriram até a loja onde eles vendiam esses artigos em Minas Gerais. A Revamp era em Santos, mas eu já não estava mais na REVAMP... Saí quando faltava apenas 30 dias para terminar. Meu saco havia torrado. O salário não era condizente. Mandei a empresa e os filhos da puta tomarem no cu e desapareci na noite a bordo de um ônibus com minha mulher e meus dois filhos. O que mais me marcou em Santos não foi a obra nem o inferno que era. Foi uma notícia de radio que ouvi sobre uma reportagem de uma emissora santista, sobre a população de mendigos na cidade. Em alguns fins de semana que tive que passar por lá, num apartamento alugado pela empresam de frente para a praia, e que quase não usava, aproveitei para bater um papo com uns mendigos. Nesses dias receberam uma gorda ajuda. Há algo que me identificava com eles: A dúvida do que vale ou não a pena, mas só eles tinham certezas. Desses, conto a história de um.

A barra na gata[2] era pesada e eu dividia o apartamento de Santos com um boliviano. O boliviano não entendia nada de montagem metalo-mecânica, não sabia como dimensionar uma solda nem como calcular uma treliça. A maioria dos engenheiros comia na mão dos encarregados e mestres. Naqueles tempos já de final de ditadura, as admissões se faziam ora por indicação, ora por imposição “comercial” de mandados de soldados de patente, mesmo que o diploma de engenheiro fosse comprado, falsificado. Eu me garantia com as cadeiras de Estruturas Metálicas e de Mecânica, do meu curso de engenheiro civil da Fluminense. O boliviano que dava suas saídas para descansar mesmo durante o dia, só tinha duas coisas boas: Não me roubava nada e se preocupava comigo, aconselhando-me a não trabalhar tanto. Eu entendia o seu ponto de vista. Um dia, desabafei com ele quando saí da Usina, numa sexta feira em que tinha que fazer plantão no sábado e no domingo. Estes plantões exigiam apenas olhos atentos e percorrer todas as instalações para verificar se tudo estava em ordem, porque somente havia pessoal da limpeza e algum pessoal de escritório colocando seu trabalho em dia. Disse ao boliviano:

- Bolívar... Estou de saco cheio e vou sair desta merda...
- Não faça isso... Disse-me sorrindo. Tem família, não tem?
- Claro que tenho.
- Então pensa na tua família. Eu tenho a minha em Santa Cruz de la Sierra que já não vejo há três meses. É duro, mas o sustento está garantido. E vou te dizer uma coisa... Se você sair essa obra pára. Nunca vi ninguém como você ter moral para ir ao puteiro de Kombi, tirar o encarregado de cima da garota no motel, e trazer o cara para trabalhar às duas da manhã... O que você deveria fazer era pedir aumento de salário. Agora era a hora.
Não me lembro do que lhe respondi, mas lembro-me do que me disse em seguida.

- Vem comigo... Vou te apresentar a um amigo que fiz aqui em Santos.

E me levou duas quadras abaixo, em plena avenida até chegarmos perto de um bar cheio de gente. Pela calçada, havia mendigos. Poucos, mas havia. Um deles abriu um sorriso quando viu o boliviano e olhou depois para mim, como quem diz: Quem é este? A barba estava crescida, maltratada, seu cabelo era gorduroso e poeirento, a pele dava sinais de crostas escuras de sujeira. Trazia um pulôver que já deveria ter sido moda e agora já era apenas quente. Os pés descalços, a bainha da calça lustrosa cheia de fiapos. Ele mesmo era um fiapo de uma coisa muito grande chamada humanidade. Seu cenho se franziu imediatamente, adotando o olhar de cachorro pidão, e pediu:

- Bolívar... Tem um trocadinho[3] hoje para o amigo? Tem?

Bolívar olhou para mim, enfiou a mão no bolso e tirou uma nota que já tinha preparada. Estendeu-lha dizendo para ter cuidado e não ir gastar em cachaça. O mendigo sorriu. Difícil não beber com uma vida daquelas. Bolívar tirou do bolso um sanduíche embrulhado em papel celofane e deu-lho também.
Não lembro dos detalhes iniciais a seguir, mas a conversa se estendeu. Fomos parar num banco de calçada da avenida, de frente para a praia. O mendigo nos contou a sua historia.
Tinha sido casado. Tinha filhos, não sabia onde a família estava nem queria saber. Por vezes sentia saudades das crianças que já eram adultos, e suas lembranças eram sempre de quando eram pequenas. Nem queria imaginá-las adultas. Trabalhara feito um filho da puta como médico até os quarenta e cinco anos. Agora vivia de esmolas há 12 anos, desde então. 
- E o que o fez largar a profissão? – Perguntei.
- Olha... Uma série de coisas... Nada que acontece na vida se deve a uma causa só. É como desastre de automóvel. Só estar bêbado não produz desastre. É preciso que venha outro distraído perto de você, ou um poste ou gente no caminho e os freios façam o carro parar no tempo certo. Foram muitas coisas que se sucederam. Casei e não consegui entrar em sintonia com minha mulher. Pelas minhas contas o dinheiro deveria sobrar, mas ela, que cuidava da casa, sempre dizia que não dava. Quanto menos dava a grana, mais plantões eu fazia, e quantos mais plantões fazia, mais tempo ficava longe de casa. Volta e meia ela me dizia que eu não ia para casa porque tinha que ter algum caso no trabalho ou fora dele. Não era verdade. Eu chegava cansado, e ao ouvir críticas injustas, eu perdia a vontade de transar. Ela se aproveitava disso para me criticar e me fazer perder ainda mais a vontade. Ela estava jogando na relação e eu não. Depois vim a saber que ela tinha não só um amante, como também já tivera vários. Mas quando eu soube disso, já tinha perdido a vontade de continuar trabalhando para fazer mais patrimônio que teria que dividir com ela, os filhos já estavam com a cabeça feita pela mãe que sempre dizia que eu estava errado, ou que o que eu dizia não tinha importância. Suas palavras eram sempre como facas. Agindo dessa forma ela tinha sempre a sua “consciência” tranqüila, de que o cafajeste era eu. As crianças também achavam embora não me dissessem nada, mas quando eu lhes pedia para fazerem alguma coisa, notava-lhes uma inconformidade ou um questionamento nos olhares dispersivos. Todos pensavam que me enganavam. Claro que quando a clínica em que eu trabalhava me pôs na rua, eu já estava preparado. Lutar para quê? Só para mim? Ora... Só para mim, a rua era o bastante...
Ficamos todos em silêncio por uns momentos, questionando-nos a nós próprios sobre o que era a vida e a motivação para vivê-la ou torná-la muito extensa.  Sobretudo, e depois conferimos, tanto Bolívar quanto eu pensávamos não na mulher e filhos porque tudo estava bem conosco, assim esperávamos e tínhamos confiança nisso. O que nos preocupava era o tal do “pontapé na bunda” da clínica, no caso do médico mendigo, ou da gata onde trabalhávamos. Isso poderia acontecer a qualquer instante. Certamente que nos relatórios escritos ou verbais diários, o mérito do trabalho deveria ir para os caras que passavam a noite em casa, e pela madrugada passavam fuligem no rosto. Esses caras falam muito e trabalham pouco. São espertos. Detectam uma falha mesmo sem importância e a relatam aos superiores. Inquirido, o cara que trabalha duro e eficientemente, mas não sabe disso, pode ser apanhado sem choro nem vela. Eu não tinha falha e os 450 homens e algumas poucas mulheres que trabalhavam sob minhas ordens poderiam atestar o meu trabalho, e o atestariam se inquiridos, mas esse dia poderia chegar assim mesmo. Quando cheguei a Cubatão, os salários estavam atrasados assim como as horas extras. Foi um trabalho duro conseguir que os pagassem, mas consegui. Sempre se lembravam disso. Companhias que trabalham para o governo têm sempre as costas quentes com a justiça do trabalho. Quando as obras com o governo terminam, têm que enfrentar o mercado privado, e então se deparam com um enorme problema: Não estão preparadas para enfrentar a concorrência, para trabalhar de forma mais honesta.

Não sei o que foi feito do bom Bolívar, do bom mendigo que ainda vi mais um par de vezes tentando convencê-lo a voltar para a ativa, e só muito mais tarde soube que a gata tinha encerrado suas atividades logo que o mercado mudou do estado para a iniciativa privada.

Mas eu já tinha saído há muito tempo e já estava na Colômbia. Quando a gata investiu numa empresa de Gerenciamento de Construção, também não estava preparada e também encerrou as portas mais um par de anos depois.

A vida constrói-se com atitudes do dia a dia, em torno do pilar de vida que somos nós próprios. Nada pode cair. Nem nós nem a família, embora sempre haja um “pobre” dentro de cada um de nós, até dos mais ricos. E, se viver com a família, for de todo impossível, então que se abandone o ninho quando todos estiverem aptos para voar.

© by Rui Rodrigues














[1] Os nomes são fictícios para evitar constrangimentos.
[2] “Gata” era o nome dado às empresas que nos contratavam... Trabalhava-se na gata. Minha gata era a Montreal Engenharia, na REVAMP da Cosipa.
[3] Trocadinho, notas pequenas, moedas, de pouco valor como se fossem um “troco” de alguma compra. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sociedades em transformação e o Mundo Gay


Sociedades em transformação e o Mundo Gay

 Vista do Espaço não se adivinha o que vai pela Terra
A humanidade tal como pensamos que a conhecemos, parece tão complicada quanto o ser humano em si, e se já é tão difícil entender todo o perfil de um ser humano e suas características, podemos imaginar como será ainda muito mais difícil entender a humanidade, um enorme ser composto de pequenas células a que chamamos de “seres humanos”, nem com tanta propriedade, ou pelo menos com propriedade duvidosa. Somente por volta de 1915 com o aparecimento de Sigmund Freud a complicada mente humana começou a ser desvendada. Hoje já sabemos onde se encontram os centros de memória, que a metade esquerda do cérebro comanda o sistema nervoso do lado direito de nosso corpo, que as enzimas têm papel fundamental nas sinapses - que são as comunicações entre neurônios - que existem substâncias que se produzem no cérebro que nos dão alegria ou tristeza conforme a nossa percepção pessoal. E um infinito de coisas que ainda são muito poucas para que tenhamos a descrição completa de como funcionamos. Só recentemente os EUA empreenderam uma pesquisa para mapear todo o cérebro humano a exemplo do projeto Genoma.
 Votos para as mulheres - Londres
Acreditava-se antigamente que ser homossexual era uma doença, tal como a síndrome de Down, que também não é doença. Também se acreditava que com eletro-choques se poderia curar uma “doença” a que chamavam de “histeria” e toda a “anormalidade”, acreditava-se, poderia ser curada com eletro-choques. O escritor Paulo Coelho foi mandando para um hospital, o Pinel, porque tinha “desvio” de comportamento. Acreditava-se em muitas coisas que nem vale a pena enumerar porque somente iria provar que as verdades de ontem já não são necessariamente as de hoje porque a humanidade evolui onde não existam governos que tolham o pensar, solapem a iniciativa privada, restrinjam a educação, matem a esperança de evoluir. Aparentemente estivemos andando à deriva durante milênios e só agora entramos no futuro, e sabemos quase tudo. Ledo engano. Nossos ancestrais pensavam exatamente como nós pensamos hoje. Pensavam que sabiam tudo e que pouco haveria para descobrir. Voar era um sonho impossível só reservado às aves, golfinhos eram peixes como os outros, mulheres tinham que usar cintos de castidade e homossexuais eram a vergonha da tribo, do bairro, da nação, eram apedrejados, condenados à morte. Há sociedades que evoluem mais rapidamente do que outras, porque neles há mais das liberdades a que me referi acima.  E a humanidade muda devagar, mas sempre cada vez mais rapidamente. Chegaremos a um estágio de progresso que não poderemos acompanhar. Depois de sairmos das Universidades como os mais brilhantes e atualizados cientistas, podemos ficar fora do mercado dez anos depois, porque as pesquisas técnicas evoluirão de tal forma que nesse espaço de tempo nos teremos transformado em analfabetos técnicos, completamente defasados das ultimas inovações tecnológicas.
Stephen Jay Gould - PaleontólogoComecei a gostar das obras de Freud ao ouvir falar dele quando tinha aproximadamente meus doze anos, mas só pude lê-lo aos dezoito através de uma obra de Emílio Mira Y López, um discípulo seu. Passei meus anos seguintes cavoucando em livros de biologia, astrofísica, paleontologia, lendo tudo o que podia e que achasse que iria complementar o que já aprendera. Quando passei os olhos pela obra de Darwin, o mundo ficou menor ainda do que depois de ler sobre Freud. O mesmo aconteceu quando li Jay Gould. E o mundo se encurtou ainda mais ao ler Stephen Hawking sobre a sua mecânica do universo.  Quando consegui entender melhor – mas jamais definitivamente - o mundo que me cercava, vi que tudo estava entrelaçado e a teoria do Caos estava no contexto do tudo. Quando vi que as mulheres estavam indo para as guerras como parte de corpos de exército, o ventre materno tinha perdido definitivamente a consideração que tinha antes e já nem tinha a mesma importância: Podiam ser abatidos em combate como qualquer pênis. O aparecimento da pílula não foi o grande passo ou o pretexto para a independência feminina, mas uma boa alavanca, seguindo um trabalho feito anteriormente pelas sufragettes na França e na Inglaterra, quando saíram às ruas exigindo o direito de votar. Hoje as mulheres israelenses saem às ruas pelo direito de orar a D’Us no muro das lamentações, coisa que por oito mil anos foi apenas privilégio dos homens. Não há nenhuma religião que não seja machista, e já podemos adivinhar que, não por falta de fé, mas por lógica divina, as religiões deverão ser abertas ao público feminino. Não se pode imaginar uma guerra real entre sexos, que possa fazer parecer uma brincadeira a “guerra fria dos sexos” a que estamos já habituados desde que Mary Quant subiu a bainha das saias de quase um metro.
Charles DarwinMas a humanidade não muda por “moda” ou modismos, seguindo as mulheres do Afeganistão o comportamento das americanas nem as malinesas as de Israel ou da França. A humanidade não muda porque aparece um “líder” com novas idéias filosóficas e todo mundo corre atrás. O futebol é o esporte preferido dos homens, mas não em todo o mundo. É que este evolui mesmo, para valer, e a lógica do “caiu a ficha” acaba por bater à porta de todos nós. O que faz sentido e aparenta ter lógica, seguimos e fica conosco para quase sempre, acarinhado, cultivado como filho, até que a evolução nos permita dar mais um passo. Mas há algo muito importante e que não é visível: O Subconsciente coletivo. O Subconsciente coletivo é um conjunto de premissas fundamentais que não percebemos de forma consciente, mas que reside no mais profundo de nossa mente. É por isso que uma guerra nuclear total jamais acontecerá. Por mais que se ameace, se finja que haverá guerra total, há no subconsciente coletivo o “espírito de sobrevivência”. A humanidade não se quer extinta a si mesma. Em todas as guerras que já houve no mundo, o fim da guerra apareceu no ultimo segundo em que uma nação iria desaparecer – Nação como perfil psicossomático, a identidade de um grupamento social, uma nação sob uma bandeira de pano ou uma bandeira genética. Por mais terríveis que possam ter parecido, e foram, as guerras até nossos dias, nada nem ninguém se extinguiu. Da mesma forma, por mais que devastemos as florestas, a vida na Terra não acabará por causa disso, nem que a humanidade seja varrida do mapa. Há um equilíbrio na natureza, leis na natureza que a preservam, não importa quem ou o que sobreviva, desde que algo sobreviva. A vida neste planeta já foi praticamente extinta por três vezes, com 98 por cento da vida extinta realmente. Os dois por cento que sobraram deram origem a toda a diversidade que conhecemos hoje.
A humanidade sabe que a superpopulação na Terra traz problemas como os que foram verificados em testes com ratos por Pavlov. Manipuladas as áreas de vida, a alimentação e a superpopulação, criando situações de extremo estresse, os ratos se comeram uns aos outros em lutas ferozes nem sempre por alimento. A humanidade não quer de forma subconsciente que se chegue a uma situação dessas vendo familiares tombarem e serem comidos em nome da sobrevivência. Precisamos provar que somos humanos e não apenas animais. Tudo no universo está interligado e tem uma explicação.
Stephen HawkingOnde estão os homossexuais que controlam de forma subconsciente a natalidade em qualquer lugar do mundo, nos países de religião muçulmana? Estão lá. Escondidos, calados, dissimulados para não sofrerem punição.  No entanto, os respectivos governos dizem que isso é proibido pela religião. Pelo contrário, no mundo livre ocidental grande parte da população está preocupada com o numero crescente de homossexuais e transexuais, dividindo o mundo em homossexuais e homofóbicos sem considerar quem aceita a homossexualidade como eu, mas não é homofóbico. O mundo não tem que se preocupar com isso. Ninguém tira o lugar de ninguém e o equilíbrio necessário à humanidade será encontrado e estabelecido sem perigo de extinção da espécie. Mulher é um ser muito gostoso se usada com carinho, atenção, amor, e sempre haverá algumas disponíveis que gostam de homens ou preferem homens.

Parece haver algo ainda mais profundo que advém dos princípios de Darwin, de Freud, da Mecânica Quântica, da Astrologia e da Teoria do Caos quando analisadas em conjunto: O universo é assim, porque desde o principio foi regido por leis que o tornaram assim, permitindo o surgimento deste planeta com a vida que nele vemos, tal como. No fundo, ao olharmos para uma floresta, seu aspecto nos parece caótico, tudo desalinhado. A natureza do mundo vivo é assim, mas há lugares de vida onde não nos parece tão desorganizada, tão desalinhada. È o mundo dos seres humanos com suas fileiras organizadas de exércitos, criando leis para a vida, a exemplo das leis do universo. Porém, no mundo inerte das rochas, vemos cristais com seus átomos tão alinhados e organizados, que chegam a ser transparentes, brilhantes, diamantes. E nós apreciamos tudo isso. A desordem, a ordem, a anarquia e as leis. Em algum lugar, em qualquer instante um pouco disto e daquilo são sempre necessários, ora como num vulcão que nunca se sabe – ainda - quando vai entrar em erupção, ora como as águas calmas de um lago. Ou ainda como a seriedade britânica de seu parlamento ou a bandoleiragem do senado em Brasília, na Grécia, em Portugal, na Espanha e em muitos outros países do mundo, onde até tramitam condenados da justiça, mas isto de condenados da justiça só em Brasília. Porém o mundo evolui e haverá mudanças.   
Parada gay 
Tenho orgulho de não ser homossexual, nem senador neste país, mas tenho orgulho de quem é homossexual. Sou democrata, parece-me que entendo o mundo em que vivo e creio na humanidade porque não há alternativa para ela. As leis da natureza a impedem do suicídio. A Terra não tem o nome de Gaia à toa. Os livros - sagrados ou não - devem ser revistos para não criar divergências ignorantes entre fiéis que não têm condições de entender o mundo que os cerca.

Um brinde à vida, um brinde a todos os seres hetero, homo, ou o que quer que sejam, até abstêmios sexuais. Mas como em tudo, é necessário perceber o entorno e o contorno da “moda”. Mudar de apetite sexual na senilidade pode significar que se trata apenas de uma desilusão, uma falta de opção com o sexo oposto, um modismo para ficar na onda, um desejo de experimentar e depois se defrontar com a realidade de não encontrar saída a menos que se mude de bairro, cidade ou nação.

© by Rui Rodrigues   

domingo, 9 de junho de 2013

Tese Social - A armadilha do Destino

Tese Social - A armadilha do Destino

A teoria do Caos abriu o mundo para os fractais, pequenas peças triangulares idênticas e isósceles, que, combinadas, dão forma a áreas e volumes dentro de determinados padrões, sempre que existe um “atrator”. Pode existir mais de um atrator no caos, gerando padrões que podem formar tanto plantas tal como as conhecemos, quanto cristais de gelo, costas marítimas como enseadas, baías. O desenvolvimento da teoria ainda dá os primeiros passos, está engatinhando, mas creio que em breve poderemos ver a teoria do Caos produzir seres tal como os conhecemos, partindo de equações mais complicadas do que as que conhecemos como “equações de Júlia”. Poderemos até num futuro tão próximo quanto, prever o tempo em função de atratores que determinem a formação de furacões, nuvens, ondas no mar. Este mundo em que vivemos, este universo, tem uma base matemática, física transcrita através da matemática, genética através da química, da matemática. Em nada exageraríamos se disséssemos que Deus, a existir, seria eminentemente um matemático com todos os conhecimentos da química e da física.

Mas o que isto tem a haver com a humanidade e em particular com uma armadilha hipotética na qual estejamos encurralados, como que com um destino traçado?

É apenas uma questão de padrões e de princípios. O princípio é o da teoria do Caos, ininteligível para uma esmagadora parcela da humanidade porque, infelizmente se fez da oportunidade de estudar um misto de plano econômico para faturar dinheiro e obter votos políticos pela ignorância Os padrões vêem-se por toda a parte nos órgãos constituintes das diferentes espécies de vida, como olhos, fígado, pulmões, rins, sangue, matéria cinzenta dos cérebros, folhas dos vegetais, comportamento dos fluidos como os da atmosfera e da água do mar. Há exemplos de padrões que poderão vir a ser observados pela teoria do Caos até sua forma mais simples de constituição: Os triângulos fractais, a exemplo da menor das partículas constituintes da matéria, a partícula de Higgs, também conhecida como a partícula de “Deus”. Pode parecer que a natureza não se repete quando analisamos simplesmente a forma do que nos cerca, a aparência, mas sim, se repete, na sua forma de constituir os elementos.

Assim, e da mesma forma, padrões se repetem em termos de comportamento de sociedades de animais, de cujas características o próprio homem, a unidade mais simples da humanidade, brotou. Também os padrões de comportamento são comuns a muitos grupos animais. Um deles, talvez o mais comum, é que todos os animais se alimentam. A busca por comida e quem no grupo tem força e poder para comer mais, são muitas vezes, ou quase sempre, decididas em guerras por territórios, lutas corporais para assumir a liderança. Quem tem a liderança, ganha também mais fêmeas com quem divide o leito sexual. Outro comportamento comum, é que o sexo dá tanto prazer ou obsessão como a comida, estando, portanto, os dois comportamentos normalmente associados. Luta-se por sexo e comida. Os que disputam no grupo as primazias da comida e do sexo, e perdem, o fazem através de lutas muitas vezes até a morte. O simples comportamento social dos símios de se catarem uns aos outros como sinal de cooperação social e de que não pretendem usar a violência com quem catam ou por quem se deixam catar. Este ritual da catação se vê hoje nos cabeleireiros, e de forma geral, como ato de cooperação e de amizade, em todos os atos dentro de um escritório de uma empresa, na própria democracia que nos engana como pode para nos manter convictos de que seus representantes maiores o fazem em nome de uma sociedade que na verdade estão longe de representar. Bem longe. Representam-se mais a si mesmos pelas “equações” caóticas da luta pelo alimento, pelo sexo, pelo prazer, pela ambição de estar no topo da cadeia social para retirar dela o que podem. 

Já antes da formação de governos, e precedendo-os, havia a formação de famílias de indivíduos dentro das sociedades que se constituam de várias famílias, unidas pelos hábitos desenvolvidos ao longo de séculos, e aos quais chamamos de tradição, bem como da herança genética, da fala comum, dos biótipos que os caracterizavam das espécies e raças diferentes. A vontade de manter unidas estas famílias, estes hábitos com os quais se identificavam as sociedades, deu origem às nações que hoje conhecemos bem como às que ficaram para trás extintas, como os dinossauros ou os “Homo Neandertalis”.  Não será, por termos partidos políticos que se alternam no governo ou no qual se locupletam, que estaremos seguros de que as guerras e lutas acabarão algum dia. Pelo contrário, guerras e lutas poderão até ser cada vez mais sutis, mas jamais acabarão. Estão escritas na herança dos fractais do Caos, na repetição de padrões da natureza e em suas equações, algumas das quais nem conhecemos ainda, mas que em breve conheceremos. Grupos específicos dentro de todas as sociedades rezam pelo fim da violência, disseminam o humanismo, a paz, mas estamos todos dentro de uma armadilha. 



As armadilhas que conhecemos e que até construímos para pegar outros animais, ou mesmo vírus e bactérias, são armadilhas externas aos corpos que armadilhamos, mas esta da natureza, é interna, invisível. Faz parte da natureza e não há como eliminá-la ou dela sairmos, até porque suas “equações”, muitas vezes previsíveis localmente são insuficientes para construir uma vacina, ou um remédio. Psicólogos e analistas sabem reconhecer os tais padrões de comportamento humano através do rito dos lábios, do franzir de sobrancelhas, das mãos suadas, dos tiques nervosos, e já é um grande passo para a obtenção de uma vacina contra o despreparo da humanidade para dissimular. Passamos o tempo todo dissimulando o que nos vai na alma porque precisamos alimentar-nos e reproduzir-nos e precisamos ser aceitáveis pelos outros membros da sociedade, do grupo ou da nação. A ambição desmedida já é outra coisa, que, embora fazendo parte de nossa idiossincrasia, está num dos extremos do comportamento aceitável.

As religiões pensam que sim, podem mudar os destinos pelas orações, ou agem como se soubessem que sim. Mas não sabem, não sei, não sabemos. Talvez saibamos. Talvez... Algum dia... Porque o que nos engana, fazendo-nos acreditar que existe destino e que possa ser mudado é a evolução, em menos de segundo a segundo, da realidade que “vemos”, e temos que admitir que não podemos adivinhar aquele carro com um sujeito bêbado, que nos colhe despreocupados na próxima esquina. Da forma como Deus teria feito o mundo, um mundo automático, auto-sustentável, que se rege segundo as suas próprias leis, segundo a segundo, sempre em evolução, não há como interferir nele de forma a alterar a sua evolução. Talvez num pequeno nicho ecológico, ou num planeta virgem de vida, mas não esta que conhecemos por aqui. 


Até lá, podemos sonhar com a Democracia Participativa, como modo alternativo para minimizar, apenas minimizar, o sofrimento de nos sentirmos numa armadilha a que poderíamos chamar de “armadilha do destino”. Claro que destino não existe. O mundo que vemos a cada segundo é fruto de uma evolução particular de cada item, vivo ou inerte, que o compõe. Mas com a certeza absoluta de que jamais sairemos dela, ainda que possamos povoar o universo com nossa espécie e com outras que escolheremos para nos acompanharem em seu sofrimento de nos alimentarem. A armadilha é eterna.


© by Rui Rodrigues. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Moçambique sem fome nem pobreza.


Moçambique é vida
Moçambique sem fome nem pobreza.

Este texto não é dirigido apenas ao povo de Moçambique, porque é atual e pode servir a qualquer nação do mundo. Trata de formas de governar, de como eliminar a fome, tornar a nação produtiva, voltada para a sobrevivência. O progresso vem com o tempo, com a barriga cheia, tempo para se dedicar a outras oportunidades.

Sabemos como é difícil governar uma nação. Ainda mais Moçambique que tem uma história rica, de lutas, que nasceu dominada por protecionismos de uns e exploração de outros, como mais uma vez, também no resto do mundo. Não é só a diferença de cor ou os desníveis de instrução que permitiam a predominância de uns sobre os outros: Em qualquer lugar do mundo sempre houve escravos, e ainda existem escravos: Os que trabalham e pagam seus impostos que beneficiam a uns e a si mesmos não. Ou se beneficiam, beneficiam mais a uns do que a outros. Esse é um problema de “ambição” e poder, e não depende de filosofia política. No capitalismo os governo beneficiam uns com capital. Nos sistemas comunistas e socialistas esses governos beneficiam com “favores”, sempre mais a uns do que a outros.

E o que se poderia fazer em Moçambique para beneficiar a população de um modo geral, desenvolver a nação e torná-la independente em economia, alimentação, auto-sustentável?

Primeiro há que tornar a economia num sistema produtivo e não dependente de favores ou benesses do Estado. A exploração de gás natural, carvão, pode beneficiar empresas e distribuir meia dúzia de empregos, mas não resolve os problemas da nação. Como sabemos o governo “possui” muitas terras. Quem não tem bens nem posses, nem emprego, pode ganhar umas terras de subsistência do governo e algumas sementes e começar a plantar para sobreviver. O estado pode ajudar na instrução da agricultura. É fato que em pouco tempo se produzirá tanto alimento que será necessário exportar, e isso gera divisas para o crescimento da economia, mas, sem um controle de natalidade, a população cresce pela disponibilidade de alimento. Se crescer de forma descontrolada, haverá mais fome, e a disponibilidade de terras cessará, porque Moçambique não é uma área de terras que infle, se expanda. Nisto o governo pode ajudar com instrução. Dirão que não há linhas de energia elétrica que supra as necessidades de um novo mercado de agricultura, mas há várias formas de energia, a partir de moinhos de vento, que são relativamente fáceis de instalar e gerir. Não se pode depender apenas do Estado. O Produto Interno Bruto não estará, jamais, disponível para toda a população carente, e a renda per capita é apenas uma média nacional, distorcida, em que dez por cento da população tem noventa por cento da renda, e os restantes noventa por cento apenas dez por cento... Há que mudar isto.

E qual seria o custo para o governo para acabar com a fome em Moçambique? Até aqui, o deslocamento de professores de agricultura e de primeiras letras e números para as novas terras cultiváveis, meia dúzia de moinhos de vento que até podem ser construídos com madeira, algumas sementes, e a boa vontade de quem tem fome em produzir seu próprio alimento livre de impostos. Se as terás cultiváveis se situarem em zona de acesso à energia de Cabora Bassa, por exemplo, uma extensão de linhas seria viável. Usinas a gás disponível na região podem gerar energia elétrica. Quando se produzir em escala, com os produtores juntando-se em associações, exportando, então se cobrarão os impostos.

A crescimento da indústria e do comércio são decorrentes das necessidades de um povo que está bem alimentado, começa a realizar uma poupança e a desejar investir na expansão de seus negócios. Num momento de crise internacional como este em que vivemos, pedir ajuda financeira no exterior é suicídio. Os juros estão pela hora da morte e o sistema Bancos x Empresas de avaliação x governos, contribui para o arrocho financeiro, a escravidão de verbas que devem ser pagas como juros de usura. É um novo tipo de esclavagismo.

Sem instrução e sem ajuda do governo no propiciar – não doar - alimentações saudáveis às populações, que as devem produzir, não se muda nada. O amanhã será eternamente igual ao hoje que não será melhor do que o ontem.

Rui Rodrigues

Para consulta:


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Sou desconfiado, sim, e não acredito em avantesmas.


Sou desconfiado, sim, e não acredito em avantesmas.
                        

Eu tinha dez anos e acabara de entrar para o Liceu Gil Vicente depois de penosa prova com 100 questões. Na saída da prova, um garoto metido a besta, comparando as suas respostas com as minhas, disse que as dele eram todas diferentes e que tinha certeza que iria passar, o que me reprovaria, evidentemente. Nunca o voltei a ver no Gil Vicente. Eu ia para a minha primeira aula de físico-Química, porque as duas matérias ainda eram dadas em conjunto numa só cadeira. O professor, para nos incentivar ao estudo fez uma experiência e garatujou uns símbolos acompanhados de sinais de mais e de igual e produziu um produto aquecido que fumegava de um tubo de ensaio. A cor era de laranja e o cheiro também de laranja [1]. Fiquei impressionado. Meu professor tinha construído uma laranja líquida dentro de um tubo de ensaio, mandando às favas a teoria da criação, a Bíblia Sagrada, e comecei a entender como que Jesus tinha transformado água em vinho... Perguntei-lhe se podia cheirar novamente e ele espanejou a mão por cima do tubo de ensaio, perto do meu nariz, para que não aspirasse muito o vapor do tubo. Mas em compensação, comecei a desconfiar de tudo o que me diziam que era, que não era, que faziam ou deixavam de fazer. Nada era o que parecia. Além das características diferentes da laranja líquida do mestre para as naturais, é que não se podia beber. Aquilo era um produto destinado a dar sabor a uma bosta qualquer e vender sob a apresentação de balas e doces e até bolos com sabor de laranja. Uma enganação que continuamos a comer deliciados. Somos um bando de ignorantes cuja maioria não assentou o rabo em cadeiras de escola, por culpa exclusiva do Estado Moderno, essa enorme e assombrada avantesma que gasta todo o dinheiro dos nossos impostos em festas, viagens, pompa e gorjetas para os amigos daqueles que elegemos inadvertidamente pensando que nos representam. Vejam que já naquela época eu não era lá muito crente de qualquer coisa que me apresentassem, e nem acreditava em avantesmas.

Meu professor já faleceu, o Gil Vicente continua lá e já lhe fiz uma visita onde se lembraram de mim porque de certa forma “marquei época”. Mandamos para a rua em plena ditadura militar três professores por completamente inadequados e incompetentes: Um deu um tapa num aluno quando ele disse que não acreditava em Jesus Cristo como Deus; o outro passava deveres para casa como se fosse o único no colégio, e não nos dava tempo para os trabalhos das outras matérias; e o terceiro não sabia nada das matérias e só falava sobre o que tinha trazido escrito de casa em longa “cola”.  Das três vezes, como chefe de turma, representei os alunos e fui falar pessoalmente com o reitor, o digníssimo Sr. Joaquim Romão Duarte [2] que jamais esquecerei.

Já não faço provas para concursos nem para admissão em universidades por absoluta falta de talento e tempo para outras atividades. Na verdade gasto meu tempo com coisas a que ninguém dá muita importância, como a Democracia Participativa, porque parece não haver muito talento nem tempo disponível por pessoas como aquele cara sem graça e petulante que disse que tinha a certeza de ter passado na prova do Gil Vicente porque suas respostas eram totalmente diferentes das minhas. Estão auto convencidos que não há nada de novo nem melhor para o que já têm. Ele teve que fazer a prova novamente no ano seguinte. Quando me formei ele ainda deveria estar fazendo provas. E outras pessoas que também não têm tempo, como aquelas que acreditam em avantesmas que andam a rondar os navios do conhecimento, a escuridão da ignorância, as praias do desmazelo social, as florestas da abstinência do pensar. Alguns até acreditam em coisas inacreditáveis tais como extraterrestres, duendes, Cavaco Silva e Uri Geller. Perguntam-se outros: Seriam os deuses astronautas? Mas comum a todos eles é mesmo que acreditam em avantesmas, algo muito parecido com gambosinos que saem pela noite montando excrescências que fazem navegar com rumo usando dois palitos queimados de fósforo como remos e remam indefinidamente sem descanso, alegres e felizes, num vaso sanitário como se fosse um universo. São os democratas representativos, os comunistas ideológicos com ou sem ideologia, os socialistas ávidos por uma conta bancária às custas dos trabalhadores, os que gostam e adoram um vermelho numa bandeira antes azul verde e amarela. Num carnaval, do Rio a Veneza, fariam parte de um bloco inconfundível: O bloco do “Mundo volta para trás, dá-me o tempo que perdi”...

Estes continuam, tal como avantesmas, rondando as urnas, as bocas de urna, procurando um benefício de um  político em troca de votos, um cargo, uma pensão, uma bolsa mesmo que não tenha família. São os “pecorinos”, aqueles que através de PECs vão transformando a Constituição nacional num imenso e escuro papel higiênico já usado e não confiável. Querem mudar tudo, reverter a lei, soltar os bandidos e prender os inocentes, transformar pobres em ricos e ricos em pobres, e para isso nem querem saber se a saúde pública os atende ou não, se há ou não segurança pública, se o tráfico de drogas diminui ou não, se nas escolas se ensina como se deve ensinar, desde que tenham sua entrada livre para um mundo de sonhos onde os ricos serão punidos e os pobres abençoados sendo destes os reinos dos céus de Brasília.

Hoje em dia Brasília tem apenas dois céus importantes: O do PT e do PMDB. Os outros fazem o papel de “base aliada”. Em ambos há também infernos, mas os diabos que cuidam deste lugar só aparecem para bater o ponto por três dias e depois somem quatro dias por semana. Ganham salários celestiais esses demônios. 

O que se pode esperar de avantesmas no poder, com confiantes avantesmas que reclamam todos os dias daquelas e mesmo assim continuam votando nelas? E é impressionante como votam há décadas de décadas sem repararem que podem mudar o sistema, mas sem ousarem mudá-lo... O que os governos nos proporcionam hoje em dia, é um emprego quando há, e um futuro de escravidão para os empreendedores que ficam pagando juros extorsivos por anos a fio até morrerem. E, sem dúvida, já se nasce escravo quando se pede financiamento para estudar em universidades... Se houver emprego para poder pagar de vez em quando, será muito... O mais provável será ficar desempregado de vez em quando e prorrogar o prazo de pagamento ficando cada vez mais escravo. Os banqueiros tomaram conta do mundo. 

Rui Rodrigues





[1] É o flavorizante Etanoato de Octila, cuja fórmula é CH3 - COO - C8H17 .... E não tem nada de laranja.
[2] Ele tinha um corpo delgado, franzino, parecendo sempre que ia tombar, mas tinha um espírito determinado, livre e forte como um raio... Grande Reitor ...

Acredite, há um modo fácil de ser feliz neste mundo.



Acredite, há um modo fácil de ser feliz neste mundo.


Vejamos se consigo traçar uma linha de fácil entendimento, lógico, de como viver na vida enfrentando este mundo que decididamente não é fácil. O objetivo é, como sempre, a felicidade. Alguns acham que a felicidade está nas drogas. Não está não. È exatamente por não estar que as drogas são comumente conhecidas como “drogas”, porcarias. Mas esta nossa busca pela felicidade nos leva para um campo totalmente diferente das drogas. Enquanto estas nos produzem alienações e alucinações que nos dão umas “férias” de minutos na vida, tornando-a cada vez mais difícil a cada instante que se segue ao final dos seus efeitos que não duram mais do que 15 minutos, este campo completamente diferente, o de facilmente enfrentar o mundo, nos proporciona aquela felicidade, grátis, ao alcance de todos desde o mais miserável dos seres ao mais bafejado pela “sorte” na vida, a qualquer instante.

Equipamento necessário: Apenas a consciência e a determinação. Para ser feliz a maior parte do tempo de sua vida, não precisa de nenhum outro equipamento, dinheiro, religião, política, ou o que quer que conheça e deseje deste mundo que tão bem conhece. Somente precisa ter o desejo, a consciência e a determinação de ser feliz. 

Passo 1 - Tem que ter vontade para aprender a amar um princípio fundamental. O que tem, tem porque merece. Traduzido em outras palavras, se for religioso ou religiosa, tem que aceitar que seu deus lhe dá o que é para ter e lhe tira o que não deveria ter porque lhe faria mal a curto, médio, ou longo prazos. Se for ateu ou atéia, pode imaginar que o que tem se deve a sua capacidade de ter e o que não tem – e provavelmente nunca terá - é porque não tem capacidade para ter e a sua busca lhe faria muito mal pela frustração de não conseguir. Além de outros prejuízos colaterais. Pode tentar conseguir o que deseja uma, duas, três vezes... Cada vez mais triste e infeliz a cada vez que não consegue. Se conseguir seu problema está resolvido e pode partir para outros desejos. Se não conseguir, pergunte-se quantas vezes mais vai tentar, deixando de se concentrar em outros aspectos de sua vida, talvez até mais importantes.  “Sou brasileiro e não desisto nunca”. Eu também não desisto nunca de reivindicar o que é de interesse geral, mas no particular, em relação a mim mesmo, tenho que saber – e sei – qual o tamanho do passo que posso dar. Se eu fosse passarinho, e tal como qualquer passarinho teria que saber que tamanho de pedra poderia engolir para mandar para a minha moela, porque se engolisse uma muito grande, e depois outra, não teriam como sair de meu corpo e ocupariam toda a parte disponível para o alimento a digerir com essas pedras[1]. Há outras frases da sabedoria popular também muito interessantes: “Não dê um passo maior do que a perna”, “Em rio de piranha jacaré nada de costas”. “Santos da casa não fazem milagres”... Todas elas voltadas para a sua consciência do mundo que o (a) rodeia e da posição que deve tomar em relação a ele. Nos momentos mais difíceis, invente algo de útil pra fazer, com determinação, e mantenha a mente ocupada. Não é proibido relembrar o passado agradável, sonhar sem estar dormindo, pensar no que poderá fazer no minuto, hora ou dia ou ano seguinte.

Passo 2 - Não existe passo dois nem três. O passo 1 é fundamental e o necessário para uma vida feliz. No entanto vale lembrar alguns aspectos particulares da vida, na forma como delineado a seguir, por serem os aspectos que mais nos preocupam. São as nossas preocupações fundamentais.


Para os jovens - Nunca se esqueça que se bater em alguém será batido. Se amar, será amado. Se ensinar, será ensinado. Se matar, será morto. Se roubar, será roubado. Se detestar, será detestado. Não há como fugir disto, porque cada uma das ações acima provoca em quem convive conosco uma reação lógica. Como não amar e esperar ser amado? Ou bater sem esperar reação? Ou matar sem ser caçado até a morte? Não existe essa falsa vantagem do enganar por muito tempo. Pode tirar-se alguma vantagem aparente, sobre os outros, durante algum período de nossas vidas, mas não para sempre. Aquele bobo de quem tirou vantagens durante anos, pode transformar-se num leão que o destroçará para sempre de forma irreversível. Ninguém é bobo a tempo inteiro, 24 horas por dia. Há sempre um despertar para as injustiças que nos fazem, e as reações são sempre as mais inesperadas que nos surpreendem e nos aniquilam.
O conhecimento nos fortalece a alma, o espírito ou seja lá o que for que nos mantém vivos e conscientes do meio que nos cerca. Temos que conhecer o meio que nos cerca, não para tirarmos vantagem, mas já seria grande feito se, com o nosso conhecimento, não permitirmos que outros tirem proveito de nosso amor, de nossa confiança, de nossa forma de viver. A felicidade é particular e não depende dos outros. Estude, tenha conhecimento, viva. Não faça nada do que sabe que um dia se arrependerá, e não conte com a sorte, porque esta pode não cair para o seu lado. Se fizer e se der mal, volte ao começo de um novo caminho, porque esse, decididamente não deu certo.

Para os casais – Vivemos num mundo egoísta. Somos corpos à deriva num mar de gente que procura a mais duradoura e eficaz forma de sobreviver, viver, ou se divertir enquanto vive, tentando estender as suas vidas, vivas, pelo maior período de tempo. Nessa luta, porque é uma luta, as ações de terceiros sempre acabam por influenciar em nossos caminhos, desviando-nos ora para um lado, ora para outro e temos que adaptar-nos a cada instante. Chamamos a esses “empurrões” de terceiros, que nos desviam de nossos caminhos, de “circunstâncias”, “sorte”, “acaso”, e são geralmente imprevisíveis. Temos que admitir que não temos a mínima capacidade de prever completamente ou sequer o que imaginar o que nos poderá acontecer nas próximas 24 horas ou segundos, mas sempre achamos que temos o conhecimento e a capacidade de entender quem nos cerca, incluindo namoradas, namorados, filhos, pais, amigos. Infelizmente não conhecemos nada, e mesmo que conheçamos com a ajuda dos livros de Freud, Jung, e outros, não conhecemos não, porque as pessoas mudam na medida em que a cada dia adquirem mais experiência da vida e conhecem outras pessoas. Assim, o casamento  representa aquela vontade, naquele dia em que se pensou em casar, como numa fotografia da vida. Para aquele instante, a fotografia representava o resumo de uma situação. Nos instantes ou anos seguintes essa fotografia já não seria a mesma e em muitos casos, a maioria, o casamento já não seria uma opção. O que está errada é a instituição do casamento que obriga a deveres por toda uma vida, como se tudo fosse imutável e o casal vivesse num éden particular sem contato com o mundo exterior. Nenhum ser vivente faz contratos de casamento neste planeta, exceto a humanidade que acha que entende tudo sobre tudo. Tudo isto para dizer que é absolutamente normal e natural casar ou não casar, separar ou não separar. O que é anormal é continuar numa relação que só trás infelicidade. Os dias infelizes estão irremediavelmente perdidos e para compensar não há seguro, compensação. Por isso e em nome de sua felicidade – sem egoísmos – se tiver que largar o barco largue. Se tiver filhos menores, espere conscientemente a  sua maioridade para tomar a decisão. Serão anos difíceis, é certo, mas com determinação e por uma boa causa, a infelicidade não lhe parecerá tão infeliz assim. Depois chute o balde, o pau da barraca, dê o fora e não se preocupe com os bens da barraca ou a água do balde, porque valem menos que sua felicidade.

Para os idosos – Não há limite de idade para cuidar dos bens que possui, desde um livro de cabeceira guardado há décadas até bens móveis e imóveis. Quando achar que já não tem forças para cuidar, delegue a quem lhe merece mais confiança. Os bens já não são tão importantes como eram quando se preocupou pela primeira vez em juntar alguns deles para o “amanhã”. O amanhã chegou e já é hoje. Os novos amanhãs serão a cada dia e há que viver cada dia sem preocupações que os enegreçam, os obscurem, os matem. Há sempre uma forma, mesmo para os doentes, de passar o tempo de forma feliz. Tente lembrar-se sempre do que ainda lhe é agradável relembrar e se puder usar seus membros, fale, escreva, leia, pinte, grave suas impressões em gravador, aprenda sobre a natureza, sobre assuntos que nunca pôde estudar em profundidade. Sua experiência, o modo como via a vida desde sua infância são muito importantes para a descendência, para todos nós. Um dos segredos da felicidade é “passar o tempo” de forma produtiva, que nos dê prazer, sem sentirmos que o tempo passa em tédio. E se ainda houver disposição para mais, transmita isso ao mundo através da net quer seja usando seu corpo e suas possibilidades ou pedindo a alguém que o faça em seu nome se estiver impossibilitado ou impossibilitada. Não importa o que o mundo pensa de você. Ele também tem seus problemas e também passará.


Para os nenéns e crianças até sete anos de idade – Se um dia tiverem acesso a esta leitura, pensem maduramente no que titio escreveu. Talvez um dia lhes venha a ser útil, e comecem logo a construir o vosso futuro. Aprendam tudo o que puderem de bem e de mal, mas usem o mal para o perceber e dele se defender, e usem apenas o bem. Bem, é tudo o que nos faz bem e não faz mal aos outros. Mal é tudo o que faz mal aos outros e a nós mesmos.

Titio Rui, vôvô Rui Rodrigues




[1] . As pedras servem nas aves para triturar as sementes através de movimentos de contrição dos músculos da moela, o órgão correspondente ao nosso estômago.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Seja sempre honesto quando procurar emprego



Seja sempre honesto quando procurar emprego.


Ilídio Francisco Olegário Barnabé estava desempregado aos 45 anos, ainda jovem. O mercado não o reconhecia como jovem, e os amigos, bom... Os amigos eram pessoas muito honestas de princípios que só indicavam amigos de amigos, e Ilido Francisco era apenas amigo e não amigo indicado pelos amigos. Assim, neste estado de pranto, Ilídio Francisco, engenheiro formado, com bastante experiência nacional e internacional em obras de todos os tamanhos e especialidades, falando e escrevendo quatro línguas de mercado, lá apanhou seu ônibus e foi para a sua entrevista de emprego: Uma empresa de construção terceirizada, isto é, trabalhava diretamente para o Estado, embora para o Estado a maioria de seus custos fossem sempre “indiretos”.


  1. A Entrevista – fase um.


Depois de uma longa espera, foi finalmente introduzido numa sala onde o chefe de Érrehagá[1] o esperava por detrás de uns óculos que tentavam disfarçar seus olhares inquisidores, como quem escuta com a disposição de ver onde que você está errando, de ouvidos em seus atos falhos, olhando de vez em quando para suas pernas e mãos para ver se estão suadas, demonstrando nervosismo. De vez em quando dava uma cheirada mais longa para ver se seu perfume tinha qualidade ou se era marca “roscoff”. Se relógio rolex comprado em camelô não passará desapercebido nunca. Se passasse por aquela entrevista ainda teria que enfrentar mais umas outras duas: A de capacidade técnica e a de capacidade mental para saberem se tem ou não algum desvio de mentalidade psicossomática, além, evidentemente, do exame médico. O resultado dessa entrevista ficou pendente, porque o chefe do Érreagá imediatamente mandara fazer consultas ao CPF, aos tabeliões da cidade, aos Bancos e às Centrais de polícia: Precisavam saber se Ilídio estava com nome sujo na praça, se tinha crédito, se tinha multas com a Polícia de Trânsito, se já dera entrada em alguma delegacia de polícia, se tinha alguma mulher solicitando pensão alimentícia e se estava sendo paga, e como eram as postagens do Ilídio  no Facebook, enfim, uma devassa na vida dele, na real e na virtual, que nem nos tempos da ditadura militar – ou do regime militar – as empresas se arriscavam a fazer. Assim, mas tranqüilo, Ilídio  lá foi para a segunda entrevista com o responsável pela seção de “construção”. Atendeu-o um conhecido dirigente que sempre aparecia nos noticiários quando se tratava de apresentar ao público televisivo o “andamento” das obras, como se as obras tivessem pernas. Já o conhecia da TV. Fez-lhe muitas perguntas sobre técnicas de construção e até lhe pediu uns “conselhos” sobre equipamento a utilizar numa obra que já estava em “andamento” com todos os equipamentos contratados. As respostas de Ilídio  foram impecáveis. Salientou num “à parte” que tanto tinha experiência em construção, propriamente dita, como em planejamento, controle de custos, contratos, gerenciamento. O engenheiro entrevistador franziu o sobrolho levemente. Não pretendia ter um concorrente ao seu próprio cargo, mas estava precisando muito de alguém em quem tivesse confiança para o ajudar em suas funções. Ilídio  poderia ser o cara certo se tudo estivesse certo com ele. E nem fumava, que era o que lhe parecia pelo “cheiro” e pelos dedos sem marcas de nicotina. Ilídio  sempre pensava nestas horas que o mercado sempre exigia dos candidatos uma candura, uma competência, uma beatitude que não se viam em lugar nenhum. Num mundo cheio de ambiciosos, maracutaias, golpes, abusos de toda a ordem, exigir de um candidato todas essas virtudes, era pura idiotice. Na verdade o que desejavam ver é se o sujeito sabia alguma coisa das funções, se tinha apresentação visual, se era bom falante, bom ouvinte, se estava perfumado, se vestia adequadamente e principalmente se sabia mentir com classe. O resto era detalhe. E ficou no aguardo de nova entrevista porque aparentemente o gerente havia gostado de seu comportamento e conhecimentos. Estava a meio caminho de ganhar um emprego...

Chegando em casa, a mulher e os filhos, já crescidos, quase se formando, perguntaram como foi a entrevista. Pela cara de Ilídio  parecia ter sido boa, esperançosa. Resolveram comemorar. Abriram uma garrafa de vinho tinto que sobrara do aviso prévio anterior, e encomendaram uma pizza da pizzaria da esquina. Nessa noite até fizeram amor porque a alegria de viver voltara. Pena que só deu para dar uma. A esposa sempre atenta, disse para ele não se preocupar. O vinho era mesmo velho e de muito alto grau alcoólico. Era argentino de Mendonza, e mais seco que o deserto de Atacama lá no Chile. Ele gostava, mas a mulher mais habituada ao supermercado da esquina gostava daquele suco de uva alcoolizado e açucarado, rotulado com o nome de “vinho suave”.  Ilídio  e todos em casa, ao longo de um tempo que de repente ficara extremamente lento esperavam nova chamada para entrevista. Os dias foram passando.


  1. A entrevista – fase dois.


O doutor Alonso Patranhos estava de bom humor. Acreditava que tinha encontrado o seu sucessor para que por sua vez pudesse subir mais um degrau na empresa. Estava de olho na vive-presidência. Poderia ser o Ilídio  a ocupar o seu cargo que assim ficaria vago e não queria perder a oportunidade.Pegou o telefone e ligou para seu amigo Paulinho que ele mesmo indicara para o posto de Gerente de Erreagá.

- Oi Paulinho... Como vai a seleção de candidatos?
- Vai bem. Já mandamos analisar a urina recolhida dos candidatos nos banheiros – sabe que sempre tomamos nossas providências para recolher a urina sem que percebam – e nenhum dos candidatos apresentou indícios de uso de drogas, nenhum tem HIV. Quanto a CPF, e outros indicadores, dois apresentaram problemas.
- E o Odílio?
- Limpo em tudo. Mas esse eu não recomendo. Pelo currículo vai pegar o seu lugar, mas você que sabe... 
- Que é isso, Paulinho... Não se preocupe. Não confia no meu taco? Realmente estou interessado no Odílio. Pode nos servir muito bem. Quanto a pegar o meu cargo, nunca ninguém pegou cargo meu. Nós trabalhamos bem em conjunto, não? Se eu precisar já sabe o de costume: Derrubamos o cara... Pode deixar. Vê se me aprova esse cara. Falou?

Paulinho não estava no cargo à toa. Sabia perfeitamente quando ser eficiente e quando ser completamente ineficiente. O importante não era a empresa, mas a equipe, o grupo, a panela. Um dia chegaria a presidente da companhia nem que tivesse de derrubar o gerente geral, o vice-presidente ou até mesmo o Patranhos. Até já tinha um dossiê contra ele na casa de sua mãe para que ninguém o descobrisse. Vai que o Patranhos lhe pedisse a casa emprestada com alguma finalidade e viesse a descobrir? Sabia que Patranhos era um bom filho da puta que se disfarçava de amigo enquanto ele, Paulinho, lhe servisse as intenções.


  1. A entrevista quase final

Ilídio adentrou a sala do doutor Patranhos já com outra cara: A cara de quem o emprego era dele. Ninguém faz três entrevistas se não for para ser admitido. Essa sua postura o ajudaria no percurso final a caminho do costume de entrar no supermercado sem se preocupar com o quanto que vai custar o carrinho cheio, sem se incomodar se a gasolina sobe de preço, sem preocupar com a subida do dólar ou com que partido está no governo. Patranhos o recebeu com um sorriso de “já ganhou, o emprego é seu”. Então, depois dos “como vai” e “igualmente” Patranhos fez uma “confissão” a Odílio, ou pelo menos o tom da conversa era de íntimos confidentes:
- Sabe, Ilídio, em nossa empresa damos o maior valor à honestidade. Somo uma empresa que preza essa qualidade acima de todas. Crescemos por nosso próprio valor e não por comprarmos este ou aquele. Evidentemente que há furos nas leis e aproveitar-se desses furos não é ilegal. Isso é problema de quem faz as leis. Ajudas não se recusam porque são valiosas, mas sempre dentro das leis e dos furos, evidentemente. Gostaria que me dissesse algo de sua vida profissional onde esta postura tivesse ficado evidente. Certamente terá pelo menos um caso a contar.

Ilido olhou firme para o seu interlocutor. Sentiu que essa era a pergunta chave. Ou era admitido ou ficava por ali mesmo, com um tapinha nas costas e a promessa de que seu currículo seria considerado posteriormente, a futuro. Respondeu com toda a sua honestidade.

- Doutor Paranhos, como sabe, manter-se equilibrado entre os “poderes” dentro de uma empresa, é difícil. Se agradarmos a todos, a alguns teremos forçosamente de não agradar porque ainda que digam que sim, estarão em campos diferentes de interesses, nem sempre os da empresa. Vejo que fiz muito bem em procurar esta para me candidatar. Também preservo a moral e a ética como pontos fundamentais de um profissional, salvo quando há que agir de forma não tão nobre para preservar os interesses da empresa para a qual trabalhamos. Mas vou contar-lhe um caso, que dá mostras de meu hábito de sempre por a honestidade acima de tudo. Sempre digo lá em casa que, chova ou faça sol, se tiver que delatar quem age fora dos preceitos mínimos da moral e da ética, eu delato mesmo. Foi o caso de...

E contou um caso em que por sua delação tinha acabado com uma gangue que atuava numa empresa, processando todo o tipo de irregularidades. Mas acabara mal e todos, incluindo Ilídio, tinham sido demitidos sob todos os tipos de desculpas. Ilídio não sabia porque razão, mas Patranhos sabia. Sabia desse caso, porque o envolvimento incluía a sua própria empresa. A gangue trabalhava para o dono da empresa e Ilídio não sabia. A direção teve que demitir todos por terem sido descobertos, e a Ilídio porque era um perigo para as ações do grupo. Mas Patranhos não demonstrou que sabia. Pelo contrário, elogiou a boa índole de Ilídio. Disse-lhe que esperasse na sala de espera. Ilídio saiu satisfeito. Agora vinha a assinatura da carteira profissional. Bebeu uma água e esperou uma meia hora.

  1. A meia hora mais demorada de uma vida.

Patranhos correu para o telefone depois de se certificar que a porta estava fechada e ninguém entraria sem que lhe abrisse a porta.

- Alô, Carlinhos... Tenho aqui no meu escritório um cara que você deve conhecer. Eu já tinha ouvido falar dele, mas não o conhecia pessoalmente... É o Ilídio. Lembra?
- Ah... Lembro... Como não lembrar... Ele é muito bom. Excelente profissional, mas não pode saber dos negócios extra-escritório. Ele é capaz de arrebentar com uma empresa. Não se compra não se vende. Vai admitir?
- Estava pensando... Mas você sabe que ninguém precisa de profissional honesto, santinho, salvo em funções que não sejam estratégicas. Mas essas ele não pode aceitar. É muito competente e tem muita experiência. Gostaria de ajudá-lo, porque reconheço a competência, mas não vejo como.
- O lugar dele seria na Polícia Federal... hehehe.. Mas isso não nos interessaria, não é?
- Bom... Fica a dica. Se precisar dele, me avisa que eu o mando para você.
- Não, não... Nem precisa... Estou dispensando.

Depois que desligou o telefone Patranhos ainda meditou por uns cinco minutos. Depois chamou Ilídio.


  1. A entrevista final.

- Caro Ilídio – disse sorridente e afável – Tinha a intenção de admiti-lo, como deve ter percebido. Dependia apenas da confirmação de uma concorrência. Se ganhássemos estaria admitido. Mas infelizmente perdemos para uma concorrente que disputa conosco o mercado. Lamento, mas seu currículo não será esquecido. Na primeira oportunidade voltaremos a chamá-lo. Sinto muito mesmo.

Ilido disse-lhe apenas que não se preocupasse. O mercado era mesmo assim. Tudo tinha que concorrer para o sucesso de uma tentativa de emprego. Ficaria para a próxima. Desejou-lhe sucesso e saiu de cabeça erguida. Patranhos ainda murmurou em voz alta para a secretária:- Como está difícil encontrar alguém com o perfil que precisamos... Aí vai um chefe de família que precisava de um emprego, e apesar das qualificações há sempre um senão... 
  
Com quarenta e cinco anos, Ilídio percebeu que estava velho e conhecido no mercado. Tinha tudo até para ser presidente de uma empresa honesta, mas este mercado estava difícil. Os tempos haviam mudado e ele também tinha que mudar. Não mais para subsistir no mercado de trabalho de seu ramo, mas para sobreviver. Quando chegou em casa, comunicou a mudança de vida à mulher e aos filhos. Eles entenderam. Foi assim que abandonaram a cidade e partiram para um lugar perto da natureza, perto de outra cidade.

Vivem bem sem o iate que nunca quiseram, sem o apartamento de cobertura no lugar mais caro da cidade que nunca desejaram, sem destruir os seus princípios que também nunca desejaram destruir.

Rui Rodrigues