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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O homem, o copo e a percepção.




O homem, o copo e a percepção.

Tinha acabado de lavar alguma louça. Afastou-se da banca da cozinha e foi até o computador que ainda o aguardava numa página aberta esperando comunicação. Era impressionante como um computador é um servo útil, bem mandado, que a um toque nosso faz o que queremos, ou melhor, o que sabemos que podemos querer. Experts em computador podem fazer muito mais do que quem apenas o usa para meia dúzia de funções. Quando acabou a comunicação no computador voltou à cozinha. Ia preparar uma caneca de leite com açúcar e três colheres de sopa de aveia em flocos. Fazia-lhe bem à saúde e era saboroso. Principalmente o final, quando o leite estava no fim, e comia a aveia com uma pequena colher de sobremesa. Reparou então que no escorredor estava um copo de vidro de tal forma posicionado que qualquer distração poderia fazê-lo cair do escorredor e certamente quebrar-se. Retirou o copo com toda a atenção e o colocou em seu lugar de costume, devidamente protegido contra tombos. Então, voltou-se para o copo e disse:

- Não precisa agradecer, mas acabo de te salvar a vida!

E deu-se conta de que tinha falado com um simples copo. Estaria louco? Seria uma possibilidade se isso fosse um costume, mas não se lembrava de ter feito algo semelhante nos últimos cinqüenta anos.  Aventou então uma outra possibilidade. A de que por um momento tivesse colocado uma parte de sua alma no copo, o que significaria que estava falando consigo mesmo. Mas também significava que não era muito normal essa coisa de falar consigo mesmo. Pensou ainda em algo mais. A física quântica diz que partículas se podem comunicar instantaneamente mesmo à distância. Talvez por algum fato não conhecido da Física pudesse ter acontecido o mesmo com o copo e este tivesse pedido para ser salvo. Mas não. Isso não poderia ser. A probabilidade era tão pequena que era o mesmo que ser impossível. Ainda lhe ocorreu que um espírito tivesse “entrado” no copo, mas essa possibilidade era tão remota como aquela da física quântica que só se aplicava a partículas e não a corpos maiores. A hipótese de o copo ter aprendido a falar e ter ouvidos também, tinha sido a primeira a ser descartada. Finalmente entendeu. 

A morte não se aplica apenas a corpos vivos. Mesmo corpos mortos, quando cremados, por exemplo, geram cinzas. Depois que as cinzas desaparecem jogadas no mar ou aos ventos, desaparece por completo: Finalmente, o corpo morto morreu verdadeiramente. Mas ainda não, totalmente, porque fica na memória de amigos e inimigos que ainda não morreram. Por pouco tempo mais, é certo, mas de certa forma ainda continuam vivos. Finalmente, quando o ultimo ser vivo que conhecia o defunto se vai, não resta nada mais daquele corpo morto que tinha sido cremado e “voltara a morrer” quando as cinzas foram espalhadas. Só agora, sem ninguém que se lembre dele, pode ser considerado definitiva e irremediavelmente morto!

Lembrou-se então que achava a morte um desperdício. Um desperdício útil porque permite que o planeta não se encha de seres vivos em menos de meia dúzia de bilhões de anos. Mas o copo, não... Ele nem se reproduz nem pode causar tamanha catástrofe de inundar de copos este mísero planeta. E enquanto pudesse servir para tomar sua água, seu vinho, o copo estaria vivo porque servia. E concluiu que viver é “servir”. Tudo o que serve, vive.

E ficou feliz. O copo ainda estava vivo e seria o de sua estimação!

Rui Rodrigues

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