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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

História infantil -Maya e os piratas do Peró








Era uma vez uma menina muito linda que falava tudo, era muito alegre, inteligente, e tinha muitos amiguinhos e amiguinhas.  Só tinha três anos, corria muito depressa, e era muito brincalhona. Mas era rebelde, contestadora e cheia de “razões” que explicava com todos os detalhes. Todos gostavam dela. Costumava sonhar com fadas, especialmente a fada “Aurora”. Com uma varinha de condão vermelha, costumava fazer “mágicas” com a mãe, o avô e a avó. Gostava de apanhar “sustos” e depois ria às gargalhadas, pedindo para repetir. Para se ter uma idéia de como enfrenta as dificuldades da vida, basta dizer que um dia, ao caminhar distraída e olhando para trás no seu apartamento, bateu com a cabeça no umbral da porta. Quando todos estávamos esperando que começasse a chorar, deu-nos de presente, uma bela gargalhada que só terminou dez minutos depois, enquanto coçava a cabeça.

Um dia foi visitar o avô Rui na casa da praia do Peró. Deu milho às galinhas, colheu um ovo vermelho da Giselda caipira de pescoço depenado, foi à praia, comeu uma caixa de bombons de chocolate e depois de almoçar a comida feita pela vovó e pela mãe, foi dormir. Foi dormir contra vontade e choramingando. Queria voltar para a praia, mas àquela hora o sol estava alto e a mãe não a deixou ir. Aquele sol fazia muito mal à pele.  

Não se lembra como chegou à praia, que estava anormalmente cheia de gente. Era uma gente diferente. Chegou até a pensar que ainda estivesse dormindo, mas abandonou logo essa hipótese, porque as pessoas eram muito reais, e havia muitos barcos com velas e mastros. Eram piratas, sem dúvida alguma, porque já os tinha visto em livros. Não pensava que existissem, que eram apenas personagens de histórias inventadas. Mas estavam ali, bem perto, enchendo e carregando umas caixas de madeira com colares de pérolas, moedas e estátuas de ouro, porcelanas chinesas, tesouros imensos que levavam para botes junto à praia. Ventava muito e havia nuvens negras no céu. As roupas esvoaçavam e ouviam-se gritos para apressar o trabalho antes que chovesse. Alguns piratas usavam chicotes e todos traziam espadas na cintura, pistolas de um tiro só enfiadas na cinta que traziam enroladas na cintura. Usavam botas curtas de couro, braceletes, muitos deles usavam uma venda preta num dos olhos. Maya sentiu medo e ao voltar-se para trás, para sair correndo de volta para casa, deu de cara com um pirata alto e forte, que tinha uma venda negra num olho, um papagaio sobre um dos ombros e uma macaquinha no outro. O papagaio estava tentando bicar a macaquinha e esta dava petelecos no louro. Parecia que não gostavam um do outro, ou que tinham ciúmes.

- Quem é você? – perguntou o pirata grandalhão.
- Sou a Maya! Mas você não me conhece. Vou embora para casa. Deixa-me passar!  Você é muito feio, seu pirata doido, cara de cabeça. Vou embora. Fui! Maraschicovola...
- Não vai não! – disse o pirata franzindo os olhos. Não tenho tempo de levar você em casa e não vou deixá-la por aqui sozinha. Vou te levar comigo. Meu nome é “Papacaco”, nome que me deram por andar sempre com um papagaio e um macaco nos meus ombros. Podemos ser bons amigos.

Pegou na Maya com um braço só, segurou-a pela cintura e com se fosse uma melancia, levou-a para um dos botes. Maya gritava, esperneava, mas ele não a largava. Entraram no bote, e o pirata gritou:

 - Vamos!Remem, preguiçosos! Suas mulas coxas!

Foi assim, ainda esperneando, que Maya olhou para trás e conseguiu ver a praia se afastando enquanto os remos dos remadores do bote faziam barulho na água ao impeli-lo na direção do maior dos barcos que se viam ancorados. Dele vinha uma música muito bonita de cavaquinhos violão e tambores, e havia até uma flauta. Maya estava gostando da música, mas estava muito triste. Queria voltar para casa e agarrar a mãe, beijá-la, enchê-la de beijos. Já estava com saudades. Achou que não deveria ter desobedecido e saído para a praia. Lembrava ainda da mãe dizendo-lhe que fosse dormir e que mais tarde iriam até a praia. Quando reparou já estava subindo a bordo do barco enorme, ainda segura pela cintura, esperneando. Ia ser raptada. Sentia que nunca mais veria as pessoas que amava. Já achava que nem eram tão chatas como pensava por vezes, quando a contrariavam. Quando subiu a amurada e pisou no convés, viu um espetáculo de movimentos: marujos limpando as tabuas do chão com enormes esfregões de pano, outros descendo por cordas enquanto as velas subiam, outros preparando os canhões, o cozinheiro correndo atrás de um porco fujão para a cozinha, outros afiando espadas. Alguns usavam pernas de pau e todos usavam lenços coloridos amarrados na cabeça ou chapéus de couro. Lá em cima, no topo do mais alto mastro. A bandeira negra com uma caveira e dois ossos cruzados tremulava ao vento. Maya pensou que talvez até fosse um carnaval daqueles que via na televisão, mas não era. Era muito real porque ela não apenas “via”. Ela estava “lá”, ali mesmo, junto com eles. Quando começou a ouvir uma gritaria muito grande, percebeu que eram ordens para zarpar. O barco partiu deixando a praia ainda mais longe. Levaram-na então para um quarto onde ficou por dois dias. Depois deixaram que ela andasse por toda a nau. A tripulação começou então a gostar muito dela e elegeram-na princesa do barco. Percebeu que havia sempre um lado bom até em piratas. Brincavam muito com ela e por momentos chegava a pensar que não era assim tão ruim estar no meio deles, mas quando se lembrava da mãe, começava a gritar para todos os que lhe passassem pela frente, chamando-os de “cara de cabeça”, “seus doidos de cara”. Eles riam e ainda gostavam mais dela.

Um dia, que Maya já não percebia quanto tempo tinha passado desde que fora levada pelos piratas, os barcos fundearam ao largo de uma ilha com um castelo bem no alto de um morro no centro da ilha. Maya perguntou ao pirata Papacaco o que iam fazer. Ele disse que iam assaltar o castelo.

- Vocês vão bater nas pessoas que estão lá no Castelo? – perguntou Maya indignada.
- Vamos! Não se pode assaltar e roubar o ouro deles, dos que estão lá dentro, porque eles não deixam a gente roubar. Então temos que bater neles.
E com um gesto, mandou atirar com os canhões. Ouviram-se dois estrondos mais fortes que fogo de artifício, e as duas bolas de pedra que saíram dos canhões junto com uma labareda de fogo bateram nas paredes do castelo abrindo dois buracos enormes.

- Mas você não pode fazer isso, seu “cara de cabeça”. Isso machuca muito. Olha, eu tenho uma idéia – Disse Maya, sorrindo para o pirata Papacaco. Minha mãe tem muito, muito mesmo... Muito leite de chocolate... Eu dou todo ele para você e assim você não bate nas pessoas do castelo. É muito bom o leite de chocolate da minha mãe. Você vai gostar, seu “cara de cabeça”. Maraschicovola!

- Então está bem... - Disse o pirata – Vamos voltar e pegar todo o leite de chocolate da tua mãe. E gritou para a tropa de Piratas:

- Retirar!... Bando de pernas de pau. Vamos apanhar leite de chocolate!

Então as portas do castelo de abriram e veio gente comemorar com os piratas porque já não iam ser atacados. Fizeram um grande almoço onde não faltou leite de chocolate só para a Maya, que agora era uma princesa ainda mais bonita. Tinha convencido o pirata Papacaco a não atacar o castelo. Dançaram muito e Maya dançou para todos verem. Bateram muitas palmas. Maya disse para o pirata:
- Você vê, seu cara de cabeça? Minha mãe trabalha e não bate em ninguém. Você podia fazer o mesmo. Porque não trabalha em vez de roubar o que é dos outros?
O pirata ficou pensativo. Olhou para ela, sentou-a no colo e disse:
- Nunca me tinham falado assim. Você, minha amiguinha Maya, é muito legal. Acho que vou fazer isso mesmo.

Quando já ao anoitecer, de barriga cheia, os piratas se preparavam para voltar para os barcos, tinham uma surpresa. Os barcos estavam em chamas. Não tinham como voltar para a casa da Maya para apanhar o leite de chocolate. Então Maya puxou a calça do pirata Papacaco e disse-lhe:

- Olha, eu tenho uma idéia muito boa. Boa mesmo. Mas tem que fazer como eu vou dizer. Ta?  (O pirata disse que sim com a cabeça). Maya continuou: Sabe, seu pirata “cara de cabeça”, aquelas garrafas de refrigerante que vocês tomaram lá no castelo? Tapamos a boca das garrafas, amarramos com cordinhas, botamos na cintura e vamos todos nadando.

- Mas é muito longe... – gemeu o pirata!
- Vamos conversando e eu te conto uma historinha. Ta?

E lá foram mar afora, nadando, com Maya contando uma história sobre a fada Aurora, o chapeuzinho vermelho. Depois contou histórias dos backyardigans e outras historinhas que ela sabia. Contou até dez em inglês e em português enquanto abria seus dedinhos da mão um a um e ensinou algumas palavras em inglês que ela também sabia. Quando chegaram á praia estava muito cansada de ter nadado a noite inteira, e adormeceu ali mesmo, nos braços do pirata que agora ia passar a vida trabalhando honestamente.

Quando acordou já estava na hora de ir para a praia.

Rui Rodrigues,
O avô babão, cara de cabeça!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Tráfico de drogas, Pablo Escobar e um projeto na Guajira colombiana.







(Relato de um amigo durante uma visita e depois de tomar umas boas caipirinhas)


Barranquilla, na Colômbia, é um forno durante todo o ano, exceto quando as brisas que vêm do mar atravessam o rio Madalena esfriam um pouco o ambiente trazendo geralmente chuvas que inundam as “calles” e as “carreras” muitas delas transformadas em imensos e altos canais coletores de águas de chuva, os “arroyos”. Essas chuvaradas tropicais arrastam pessoas, carros, tudo o que estiver pelo caminho. Os robalos que se pescam no Madalena quando sobem o seu curso, são mais gordos dias após essas chuvaradas.


Eis um breve resumo do que me contou:

“Quem a olhasse não chamaria a atenção. Essa mania de as espiãs de filme serem todas boazudas, gostosas, atraentes, curvilíneas, é pura ficção. Espiã que se preza passa desapercebida e só é gostosa quando tira a roupa e se entrega ao desvario. São frias e calculistas, mas quando necessário são quentes e não entendem nada de matemática. Aquela pelo menos era uma espiã perfeita. Precisavam de alguém confiável que tivesse uma posição de liberdade no projeto e que pudesse entrar e sair a qualquer hora. Encontraram-me por indicação de um americano no longo verão de 12 meses em 1982. Pediu-me sigilo absoluto perfeitamente compreensível. Por isso ninguém entendeu porque motivos me davam regalias que mais ninguém tinha no projeto, como, por exemplo, viajar todas as semanas a Barranquilla nos aviões do projeto quando havia prazos rígidos a serem obedecidos de permanência dentro das grades do projeto. Havia guardas e postos de controle, uma equipe da CIA, um porta-aviões e alguns navios de guerra pairando ao largo da costa norte da Colômbia. No projeto, um posto do exército, da marinha e da aeronáutica com dois pequenos aviões tomados do tráfico. Pensava-se que naquela sala - sempre fechada e com acesso restrito - as mensagens cifradas se devessem à “confidencialidade” de assuntos da companhia. Não era apenas para isso. Era ali que também a CIA atuava nas comunicações. O objetivo, diminuir o tráfico de drogas e caçar o inimigo público número 1, Pablo Escobar, chefão do cartel de Medellín. A revista Forbes chegou a quantificá-lo como o sétimo homem mais rico do mundo, controlando cerca de 80% de toda a cocaína a nível mundial. Alugaram-me uma casa ao lado de um outro traficante “tolerado” pela polícia de Barranquilla. Todos no projeto achavam que fora por acaso essa coincidência e quando os guarda-costas deste traficante evitaram um assalto à minha casa, ninguém ligou nada com nada. Era tudo uma sucessão de coincidências que passavam desapercebidas.

A espiã que veio do forno de Barranquilla trabalhava como fiscal de contratos. Isso lhe dava a mobilidade que necessitava. Todas as empresas contratadas se estendiam desde os contrafortes da serra de Santa Marta, onde se cultivava maconha e coca, até o porto de minério. Pelo caminho abriam-se aeroportos nas areias do deserto, a trator, em um só entardecer. Quando a noite caía, pelas seis da tarde, colocavam umas latas com combustível que acendiam quando ouviam o ronco dos motores dos aviões de contrabando. Em menos de cinco minutos a carga era embarcada, o dinheiro recebido. Em mais dez minutos nada havia no local. Apenas uma pista que jamais voltaria a ser usada. Aviões chegavam carregados de coca vindos da Bolívia e do Peru. A carga ia para Miami, de onde vinha o dinheiro. As FARC jamais chegaram á Guajira, nem vindas da Venezuela, nem do Panamá, do Equador, nem dos demais Departamentos da Colômbia. Enquanto durou o projeto, entre 1982 e 1985, o mundo viu o tráfico de drogas faturar cerca de nove bilhões de dólares.

Encontrávamo-nos, a espiã e eu, no meu trailer no projeto, ou na minha sala em Coltabaco. Quando tirava a roupa, mostrando todo o seu corpo, era perfeita e bela, quente como Baranquilla. Também nos encontramos certa vez em Cali numa visita a uma empresa que desejava participar de concorrências como parte do procedimento de pré-qualificação. O cartel do tráfico de Cali era antagonista do Cartel de Medellín de Pablo Escobar. Algumas das maiores empresas de construção serviam para lavagem de dinheiro do tráfico. Estava explicado porque as FARC não se aproximavam do projeto que se estendia ao longo de 500 km, parte na selva, parte no deserto de “la Guajira”, um imenso lençol de carvão subjacente. Soube pelo traficante que morava ao lado de minha casa na praça da termoelétrica, em Barranquilla, que Pablo Escobar estaria de visita nessa cidade para uma reunião com o pessoal do tráfico. Queria um acordo para dividir parte do mercado com o pessoal do Cartel de Medellín. Foi numa festa da escola onde meus filhos estudavam. A liberdade era tanta para a gente do tráfico, que o meu vizinho traficante disponibilizou um avião para levar as crianças da escola de passeio aéreo sobre a cidade. Algo deu errado, porque Pablo Escobar não compareceu. A uns dois quilômetros do projeto, na semana seguinte, dois agentes da CIA foram mortos a pedradas num local conhecido como Casa Blanca, para dar a impressão de vingança pessoal de gentes de um povoado de índios guajiros para os quais existe a dívida de sangue: sangue se paga com sangue. Na verdade esses agentes estavam na pista de uma viagem de Escobar às imediações do projeto onde iria verificar as condições das pistas de aterrissagem. Estava perdendo muitas cargas e muitos dólares tinham sido apreendidos.

Tivemos sucesso em algumas atividades, como aquela em que descobrimos que um gerente em Rioacha, uma cidade perto do porto, usava dinheiro do tráfico para fazer os seus próprios negócios. Um dia a CIA foi até Rioacha, apanhou o sujeito, levou-o para o projeto numa Toyota com escolta, onde pegaram um avião para Barranquilla. Chegaram dez minutos antes do vôo para Miami. Entraram com o sujeito no avião. Deve estar preso até hoje numa prisão americana. Um gerente de contratos foi sumariamente demitido. Dois aviões carregados de dinheiro, vindos de Miami, quando pousaram, não encontraram a carga para levar. Quem os recebeu foi a CIA, as cargas já apreendidas. Num entardecer um avião da base decolou com 19 soldados a bordo. Interceptaram um avião do narcotráfico que abateram, mas na volta à base encontraram as luzes do aeroporto apagadas. Pousaram num espaço reduzido de uns duzentos metros num local de pré-soldagem de trilhos depois de terem perdido a cauda do avião ao aproximar-se e baterem nuns cabos de alta tensão ainda sem carga elétrica. Fui até o local. As pernas do piloto tremiam quando desceu do avião, todos sãos e salvos. Nunca se perguntaram no projeto como se sabia dos vôos e dos horários do tráfico, nem porque razão alguns interessados nada podiam fazer para me tirar do projeto.

No final de 1985 tive meu ultimo encontro com a minha bela espiã. Minhas atividades terminavam com o fim do projeto. Ela continuou por mais alguns meses até que toda a atividade de fechamento das contas do projeto, já em operação, terminassem. Nunca mais soube dela. Tem no peito um colar de esmeraldas que visto por alguém será apenas uma jóia. Para ela muitas e boas lembranças. Foi uma pequena parte do pagamento extra da CIA. “

Rui Rodrigues


PS- Leitura complementar sobre o tráfico de drogas

sábado, 21 de julho de 2012

O menino e os gibis.




O menino e os gibis.


Antevira o futuro, agora já presente, pela nuvem que costumava pairar em dias negros de sua infância, de sua juventude. O pai emigrara para um estrangeiro muito longe e a tia histérica que cuidava dele batia-lhe todos os dias com cinto, chinelo, o que tivesse à mão. Não raro lhe davam ataques que a deixavam contorcendo-se no chão por breves instantes. Depois ela levantava-se e tudo voltava ao normal. Freud teria certamente uma boa conversa com ela que a faria terminar com as divergências entre o seu alter-ego e o seu ego, mas naqueles tempos ainda se limpavam chaminés, os tempos eram difíceis e não tinham dinheiro para consultas. Ela só melhorou quando casou com um homem bom, gordo, calado, bonachão. Depois, passado pouco tempo, ela, que sempre vivera sozinha, começou a irritar-se com o marido, e novamente o garoto se viu mergulhado em dias negros, quando então se recolhia a sua nuvem. A nuvem podia ser interpretada porque falava através de sua própria linguagem. Falava através de livros de história em quadrinhos. O futuro estava todo lá, contado de forma acessível a qualquer um. O que a criança não sabia muito bem era se as histórias faziam o caminho para o futuro, ou se o futuro simplesmente se revelava nos livrinhos de histórias.

Sua personalidade foi sempre construída entre escolhas, dia a dia, reagindo a cada atitude do mundo, boa ou hostil, por reação contrária ou por adoção do comportamento, da idéia, da situação. Procuraria jamais bater em crianças, defenderia os fracos, teria que ser um forte até mesmo na determinação. Hoje, muitas décadas passadas, olha para o passado de vez em quando e vê, relembra, revê o que sempre lhe foi óbvio: Todas as histórias infantis eram tristes ou tinham seu lado triste. Até nas canções infantis. Talvez o futuro viesse a ser triste. Não o seu próprio futuro, mas o futuro da humanidade.

Quando assistiu ao filme “Pinóquio”, um livro de histórias em quadrinhos contado em movimento, preocupou-o mais a raposa que desviava o boneco vivo de madeira do que propriamente as suas mentiras, porque estas por vezes eram necessárias para fugir do furor crônico da tia, enquanto o ser desviado de seu caminho por pessoas interesseiras e que não estariam verdadeiramente interessadas nele, era muito mais importante. Notou que Pinóquio só tinha um pai. Ele não tinha mãe nem madrasta. Ele tinha uma tia que dizia cuidar dele, mas que era como se fosse uma madrasta. Talvez um dia o mundo não tivesse mais mães desse tipo, talvez os homens não casassem, talvez só nascessem filhos amados, desejados, que não fossem largados. Quem escreveu esta história não gostava muito de mulheres.

Assistiu ao filme “João e Maria”, e percebeu um mundo hostil às crianças, em que uma madrasta aconselha o pai delas a largá-los na floresta porque não tinham o que comer. O pai concordara e elas vão parar na casa de uma bruxa cega que tinha construído uma casa de doces e chocolates para atrair as crianças que engordava para depois as comer. O pai e a madrasta perdem tudo. Joãozinho mostrava sempre um osso de um dedo á bruxa, para mostrar que estava magro. Livres da bruxa que Maria consegue matar reencontram o pai que os recebe de braços abertos porque lhe trouxeram os tesouros da bruxa.
O menino aprendeu com esta história que tinha de fugir das bruxas, das madrastas, e que teria que ser independente para não depender de pai cativado por elas. Quem escrevera esta história não gostava muito de mulheres.

Folheou livros e livros de histórias em quadrinhos de super heróis: Batman, O Fantasma, Superman, Homem Aranha, Tarzan, todos muito poderosos beirando o endeusamento, mas nenhum era casado, nenhum tinha filhos ou filhas. Tinham dinheiro mas não se sabia de onde vinha. Tarzan preferia viver com uma macaca, mas soube-se depois que era na verdade um macaco. Os que escreveram estas histórias não gostavam muito de mulheres.


Branca de Neve divertia-se com os sete anões, demonstrando uma juventude promiscua. Os anões eram trabalhadores e extremamente ciumentos, cercando-a de todo o conforto. A madrasta dela era linda também, mas transforma-se numa bruxa velha e caquética para matá-la com um sono eterno produzido por um veneno contido numa maçã.  Traidora e ingrata, Branca de Neve acaba por apaixonar-se por um príncipe que herdaria a riqueza dos pais. Afinal, os sete anões eram apenas trabalhadores de minas que produziam qualquer coisa que não os fazia enriquecer nunca. Quem escreveu esta história não gostava muito de trabalhadores nem de mulheres.

Ali Babá não era casado e rouba uma caverna de ladrões cheia de riquezas mas não as devolve aos que foram roubados. Estes ficaram sem as suas economias. Casa-se com uma empregada que nem se sabe se era bonita ou feia, mas que tinha moral e ética, por avisar Ali Babá que os ladrões estavam escondidos em grandes ânforas de barro para matá-lo e ao irmão ambicioso que tinha ido sozinho na gruta também para roubar. Salvou-o Ali Babá, e por isso os outros ladrões os procuravam para se vingarem. Quem escreveu esta história achava que se pode roubar impunemente sem devolver o dinheiro roubado a seus donos. Não se vê outra coisa neste maravilhoso mundo novo.

A Gata Borralheira é uma irmã perseguida que sofre bullyng por parte das irmãs e da madrasta. Havendo um baile e impedida de ir, A Gata Borralheira recebe ajuda de uma fada “irreal” e vai á festa perdendo um sapato na pressa de voltar para casa. A madrasta e as irmãs são reais, a expressão do mal, mas a fada, que expressa o bem, é de mentirinha e usa uma vara para fazer milagres. O príncipe, inveterado pedólogo, apreciador de pés femininos pequenos, irá torrar toda a grana do pai casando-se com a dona do sapatinho perdido. Quem escreveu esta história deixou patente que uma em cada cinco mulheres é terrível, ruim. Não gostava de mulheres certamente.

O pato Donald tinha três sobrinhos e não era casado. Vivia amando uma garota, a Margarida, que tinha um amante chamado Gastão e era rico. Os três porquinhos viviam sozinhos numa casa instável porque o Lobo Mau as derrubava para comê-los. Mickey tinha uma namorada, a Minnie, mas não viviam juntos. Ele vestindo uma cueca e ela uma minissaia curtíssima. Ambos viviam sós. Amavam-se mas jamais se casaram. O casamento não era recomendável para quem escreveu estas histórias. Bom mesmo era a eterna namorada sem compromissos com quem se pode dar uma rapidinha e até passear de vez em quando.

Na história do chapeuzinho vermelho, a mãe e o pai não aparecem, a avó vive sozinha e o lobo mau quer transar com as duas. O gato Tom não tem uma amiguinha chamada Gerry. Gerry é um rato macho que o Tom quer comer de qualquer modo.

O menino da nuvem lidou com tudo isto pensando nas razões que levavam os autores a escrever histórias tristes para crianças, que dentro de um quadro imaginário incluíam mensagens subliminares esclarecedoras de suas próprias experiências infantis. Ou tinham tido uma madrasta das brabas, ou sofrido bullyng, ou eram gays por opção ou natureza. Decididamente o mundo era muito parecido com as histórias em quadrinhos, e, ou apontavam para um comportamento futuro, ou faziam o futuro do comportamento.

O menino já não vê nuvens em sua vida. Casou cedo, teve seus filhos, suas mulheres, não foi príncipe nem pobre, enfrentou ondas e vendavais. Não está na idade do lobo mas não é mau e gosta das mulheres. Teve a sorte de perceber que o mundo nada mais é do que uma história em quadrinhos contada de forma real todos os dias, mas já se abstém de ler essas histórias. Há novas edições e novas histórias no mercado. Calvin tem um amigo confidente de pelúcia, um tigre, mas é ainda muito criança. Tem pais ainda casados e só detesta a professora. Já é um progresso. Mas bom mesmo, era a literatura de cordel.


Rui Rodrigues

sábado, 14 de julho de 2012

Piratas do Caribe – Bartolomeu “português” - A lenda de Annie Palmer




Jamaica é um paraíso numa ilha cuja linha de maior comprimento corre quase paralela á linha do equador, em pleno mar do Caribe a sul da ilha de Cuba. Recomendo!


                                                     Piratas do Caribe e Port Royal


Demandando os portos espanhóis por ali passavam obrigatoriamente os galeões carregados de ouro vindos da Colômbia, mais precisamente de Cartagena de Índias ou da cidade do Panamá. Os piratas fundaram então uma cidade onde ficavam de tocaia aguardando a passagem de galeões e outras naus para assaltá-las: Port Royal (ou Port Royale, por influência francêsa). Um terremoto em 7 de junho de 1692, seguido de tsunami, destruiu e afundou Port Royale matando cerca de duas mil pessoas.  

A Inglaterra adquiriu a cidade de Port Royal da Espanha em 1655. Em 1659 já havia duzentas casas cercando o forte e em 1661 um bar para cada dez habitantes. Bebiam preferencialmente vinho e rum. Havia prostitutas em tal quantidade que chegou a ser chamada de Gomorra do Novo Mundo. Por lá passaram piratas famosos como Bartolomeu português, Henry Morgan, Bartholomew Roberts, Roche Brasiliano, John Davis e Edward Mansveldt (Mansfield). Muitos piratas se transformaram em mendigos gastando o seu dinheiro com prostitutas e rum. Segundo Charles Leslie, chegavam a gastar 2 a 3 mil peças de ouro numa noite, uma enorme fortuna. Por 500 peças alguns pagavam a mulheres apenas para ficarem nuas.  Era costume colocarem copos de bebida nas ruas e obrigarem quem passasse a beber com eles.
Como a Inglaterra não mandava dinheiro nem forças armadas para defender a cidade dos ataques de franceses e espanhóis, os governadores resolveram pedir ajuda aos piratas. Henry Morgan, o famoso pirata chegou a ser nomeado governador e de Port Royal atacou a cidade do Panamá, Portobello e Maracaibo.
Depois de Henry Morgan o comércio de escravos começou a ser mais importante. Em 1687 a Jamaica sancionou leis antipirataria e Port Royal se transformou num centro de execução de piratas. Foram enforcados Charles Vane e Calico Jack em 1720 e dois anos depois enforcaram 41 piratas.

                                                                Bartolomeu Português




Bartolomeu português é uma raridade em termos de pirataria. É o único reconhecido como tal em toda a história da pirataria do mar do Caribe e das Américas. Anteriormente a ele, apenas três são conhecidos: Gonçalo Pacheco, Mafaldo e Lançarote que atuavam por volta de 1443 no estreito de Gibraltar para atacar navios árabes e espanhóis que demandavam o golfo de Biscaia, a caminho da Galiza.
Bartolomeu português ficou famoso por ter estabelecido o primeiro código de regras conhecido como o “Código da Pirataria” usado pelos piratas a partir do século XVII. Não teve muito sucesso como pirata sendo capturado por varias vezes e conseguindo fugir. Chegou ao Caribe e a Port Royal na década de 1660.

A história de Bartolomeu português é agitada e frustrante. Com uma pequena embarcação de apenas 4 canhões e cerca de 30 homens, assaltou e apresou um galeão espanhol ao largo de Cuba com 70.000 dobrões de ouro e um grande carregamento de cacau. Tentou navegar na direção de Port Royal, mas fortes ventos empurraram-no para o Cabo de Santo Antonio onde foi capturado por três naus espanholas que o perseguiam pelo assalto ao galeão espanhol. Durante uma tempestade toma a nau onde estava e escapa, mas é obrigado a navegar na direção de Campeche, no México, onde é reconhecido e capturado pelas autoridades. Ficou preso a bordo de uma das naus espanholas, fundeada ao largo, e com uma faca roubada mata o vigia e volta a escapar usando jarros de vinho como bóia porque não sabia nadar. Em fuga, caminhou 190 quilômetros pela selva e alcançou um lugar conhecido como “El golfo triste” no este da península de Yucatán, onde encontrou um barco que o levou a Port Royal.  Volta então a Campeche com cerca de 20 homens e assalta a nau onde tinha estado prisioneiro com toda a sua carga. Faz-se ao largo e assiste ao afundamento da embarcação, perdendo toda a carga, ao largo de Cuba, próximo á Ilha da Juventude. Com a tripulação sobrevivente Bartolomeu regressa novamente a Port Royal de onde saiu mais uma vez para o mar. Nada mais se conhece dele desde então. Segundo o biógrafo Alexander Olivier Exquemelin morreu na maior das misérias do mundo. Há quem diga que foi na ilha de Tortuga, uma zona neutra de piratas, onde costumavam vender os espólios de suas atividades para não pagarem os impostos exigidos em Port Royal e nas outras cidades piratas da região.


                                                           A lenda de Annie Palmer





Saindo de Mo Bay e na direção de Rio Bueno e Ocho Rios, chega-se a uma casa imponente, de arquitetura georgiana, construída na década de 1770, sede de uma antiga fazenda: Rose Hall Plantation. Em princípio nada tem a haver com piratas, mas a lenda sobre a proprietária faz parte do folclore jamaicano. Foi chamada de “a feiticeira branca”.

Annie Palmer, nasceu na Inglaterra, filha de mãe inglesa e pai irlandês. Passou a maior parte de sua vida no Haiti. Com a morte dos pais por febre amarela, foi adotada pela babá, que segundo reza a lenda, praticava vodu e lhe ensinou as artes da feitiçaria. Mudou-se para a Jamaica e em 1820 casou com John Palmer, o dono da Rose Hall Plantation, a leste de Mo Bay. John Palmer teve morte suspeita, assim como os outros dois maridos posteriores de Annie. Dizem que foram vítimas de Annie. Sozinha e tendo que comandar a plantação, dizem também que usava o vodu para aterrorizar os escravos. Dizem muita coisa sobre Annie: que dormia com os escravos e depois os matava, como no levante escravo de 1830. Um escravo chamado Takoo, amante dela tinha uma neta. Annie era apaixonada pelo marido dela. Não podendo tê-lo como amante, teria feito uma prática vodu em função da qual essa neta veio a  falecer.  Ao descobrir isso, Takoo matou Annie e fugiu para o mato onde foi descoberto e morto por dois outros escravos também seus amantes. Os novos proprietários disseram que uma empregada deles teria sido “empurrada” de uma varanda pelo fantasma de Annie. A empregada partiu o pescoço e morreu.

Depois de ouvir esta triste história, soube que quem tinha casado com John Palmer foi uma tal de Rose Palmer e que realmente teve mais três maridos depôs desse. Ela era, segundo investigação em 2007 por Benjamin Radford, uma mulher de inabalável virtuosidade. A confusão toda provem de um romance jamaicano escrito em 1929 porHerbert G. de Lisser. Poly Thomas, autor do livro “Rough Guide to Jamaica” também atesta que a confusão provém desse romance.

Para manter a lenda em Rose Hall também oferecem passeios noturnos que se concentram na lenda de "Annie Palmer": supostos locais de túneis subterrâneos, manchas de sangue, assombrações e assassinatos. As sessões também são realizadas na propriedade na tentativa de evocar o espírito de Annie.

Jamaica No Problem

Rui Rodrigues

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sobre a partícula de Deus, o “bóson de Higgs”.




Sobre a partícula de Deus, o “bóson de Higgs”.

Tentarei explicar do que se trata, de forma a que se possa facilmente entender mesmo para quem nunca teve contacto com a Física Quântica. Dedico-me ao estudo da Física Quântica há pelo menos uns 25 anos, sem nunca ter passado do estágio de “entender” o que os físicos constatam e calculam. Para poder lidar com ela seria necessário que eu voltasse para a universidade para complementar meu curso de matemática. Entendendo as dificuldades do entendimento desta matéria, descrevo da forma mais simples possível do que se trata.

1 – Sobre a Mecânica Quântica


A Mecânica Quântica é uma teoria baseada no uso do conceito de uma unidade -quantum- para descrever as propriedades dinâmicas de partículas subatômicas e as suas interações. Foi iniciada pelo físico alemão Max Planck que postulou em 1900 que a energia só pode ser emitida ou absorvida em pequenas unidades chamadas quanta. Também fundamental ao desenvolvimento de Teoria Quântica é o Princípio de Incerteza formulado pelo físico alemão Werner Heisenberg em 1927: é impossível determinar com precisão absoluta, no mesmo instante, a posição e o momento de uma partícula. Quanto mais precisão buscarmos em um aspecto, mais prejudicado vai ficar outro. Ou seja, se temos certeza absoluta de sua velocidade, não podemos saber em que “local” a partícula se encontra e se sabemos exatamente onde está, não podemos ter certeza de sua velocidade.
A Física Newtoniana – ou clássica -permite, para grandes massas, determinar exatamente a posição e a velocidade de um corpo, Ele hoje é aceito como uma aproximação da teoria quântica em sistemas com grandes massas. Ou seja, não há um domínio clássico separado da mecânica quântica.

Para entendermos o que é o bóson de Higgs ou a “partícula de Deus” precisamos primeiro entender o que são físicos teóricos e as “teorias de brinquedo”.

2 – A Física teórica e as “teorias de brinquedo”


Os físicos teóricos conhecem tudo – ou quase tudo – sobre Física. Sem meios de testar praticamente as origens do Universo e muitas das propriedades da Física de partículas, mas tendo a percepção de seu funcionamento, criam “teorias de brinquedo” que as expliquem. Uma vez criada a teoria de brinquedo, ela deve explicar o que já se conhece das origens do Universo, as propriedades do universo visível, e o que também se conhece das propriedades das partículas e de suas interações. A teoria do Universo Inflacionário foi uma delas. Uma vez que atenda a tudo o que se conhece, a teoria deixa de ser de “brinquedo” e pode ser considerada como “factível”. Tem então a aprovação da comunidade de físicos internacionais e é então publicada em revistas especializadas. No entanto nem todas as teorias aceitas partem de teorias de brinquedo.

Em 1964 ainda se temia que houvesse um número infinito de sub-partículas em que a matéria se poderia dividir. Conhecia-se o átomo composto de elétrons, prótons, nêutrons, e suspeitava-se da existência de outras sub-partículas constituintes dos prótons e dos nêutrons – os “quarks”, e bastantes outras partículas livres como os neutrinos (só para exemplificar).  

3 – Os Campos de Higgs e o bóson de Higgs.

Em 1964, o físico inglês Peter Higgs criou uma dessas “teorias de brinquedo” a respeito de campos de força, porque achava que em certa fase da constituição da matéria deveria existir uma partícula mínima que separaria o estado de matéria do estado de energia, sendo ainda matéria. Incrivelmente, ela deveria corresponder a uma “dimensão” mínima, denominada “comprimento de Planck”, a partir do qual a Mecânica Quântica já não pode descrever o estado físico nem as suas propriedades. Para os curiosos o comprimento de Planck é igual a 1,6 × 10−35 metros, ou seja, 0, 00000000000000000000000000000000016 metros.

A “teoria de brinquedo” de Peter Higgs consistiu em imaginar um campo de forças traduzido em vetores que poderiam variar de acordo com a temperatura, a pressão, a densidade, de forma metaestável, isto é, que podiam variar a qualquer momento interagindo uns com os outros. Imaginou também que tal como nos outros campos já conhecidos sejam produzidas ondas e que cada onda produza uma partícula (mais ou menos como na praia vemos uma onda soltando respingos).

Em termos de Física de partículas, o descobrimento da constituição do átomo por elétrons rodeando um núcleo de prótons e nêutrons, idealizado pelo físico Niels Bhor (físico dinamarquês – 1885 -1962, prêmio Nobel), permitiu um avanço substancial na Física Quântica.

Já em 1964 se descobriram os Quarks (Murray Gell-Mann e Kazuhiko Nishijima) como partículas constituintes de prótons, nêutrons e elétrons. A Física deu um salto fantástico. Crendo que a descoberta da partícula do “comprimento de Planck” ou “bóson de Higgs” também poderia permitir outro avanço fantástico, os físicos que trabalham no Grande Colisor  de Àdrons (LHC) em Genebra na Suíça, prepararam este centro de pesquisas para o processo de colisão de partículas que poderia evidenciar e constatar a sua existência, tal como Peter Higgs a havia idealizado através de cálculos exatos usando a sua “teoria de brinquedo”.

No dia 04 de julho de 2012, com Peter Higgs ainda vivo - graças ao Deus Único – foi constatada a existência desta partícula e a teoria deixou de ser de brinquedo... Somente se pode explicar fisicamente a existência do Universo e de nós próprios – tal como Deus iniciou a sua existência – se os campos de higgs existissem realmente, como ficou provado que existem. 


4- A ciência e as religiões

Os seres humanos não querem competir com Deus. Querem descobrir como Ele fez o Universo – devo dizer Universos – com a inteligência que Ele nos deu e que não devemos desperdiçar. Quem compete com Deus são alguns dos religiosos donos de Igrejas e templos, e de quem neles se suporta, que falam, sem saber, sobre o sua Obra e nos dizem o que Ele quer sem saber o que dizem.

Os Físicos, matemáticos, químicos, biólogos, etc, estão não só descobrindo como Deus fez o seu trabalho, como interpretando o que Ele diz. A linguagem de Deus não é a linguagem de qualquer etnia sobre a Terra ou outros planetas habitados: È a linguagem da matemática, da química, da física, das ciências. Unidos, fraternos, somos uma humanidade em evolução que terá todo o tempo do mundo para evoluir. Desunidos podemos aniquilar-nos.

Paz no mundo, paz entre os seres humanos, paz nas religiões e nos templos. Temos muito que trabalhar ainda para gerar conforto e sustentabilidade para este planeta.

Sem a ciência não haveria luz nos templos nem “Papa-móvel”. Se a Terra não fosse redonda e girasse em torno do Sol, não haveria satélites nem celulares, nem TVs nem geladeiras.

Rui Rodrigues

quinta-feira, 14 de junho de 2012

PROCURAM-SE DESAPARECIDOS





PROCURAM-SE DESAPARECIDOS


Despertei a altas horas da manhã. O dia tinha-se acabado, a noite ia a meio, novo dia ainda estava longe. Senti falta de algumas pessoas muito importantes de um rol que pululava em minha mente. O contato com elas desaparecera e nunca mais as vi. Outras existem, mas são já tão poucas, que se acreditasse nas visões apocalípticas de passados videntes, diria ter chegado o final dos tempos, novas Sodomas e Gomorras queimando pela terra como vulcões em prédios alimentados por gás combustível, plásticos em labaredas mal cheirosas, fagulhas de materiais incandescentes elevando-se nos ares, gritos de condenados urrando numa prisão implacável de fornos crematórios.

Lá estava o senhor Agostinho e outros como ele. Tinham umas caras bondosas, tranqüilas, falavam com todos sem lhes importar a condição social, baixavam-se à altura dos olhos das crianças para falar com elas, paravam alguém na rua que lhes parecesse muito preocupado ou chorando para lhe perguntar se precisava de ajuda. Invariavelmente faziam doações a comunidades necessitadas e seus testamentos sempre contemplavam algumas dessas instituições. Quando naquele momento, em minha busca por outros tipos, procurei por alguns outros, notei-lhes  também a falta. Aquelas instituições em que o sr, Agostinho acreditava como benfeitoras de desamparados, também já não existiam. A maioria retirava apenas uma pequena parte das doações para auxílio e o resto para que os donos, os sócios, levassem uma boa vida. Muitos lares para idosos foram fechados por maus tratos a seus beneficiados, e em muitos outros não eram lares, mas infernos onde os idosos passavam frio, fome, sede, e sofriam de carências, de falta de higiene, de assistência médica. O senhor Agostinho dava doces, rebuçados, chocolates à criançada. Hoje ensinamos as crianças a não aceitarem nada de ninguém porque podem sofrer por isso. Quem as dá pode fazê-lo para atraí-las, raptá-las, tirar-lhes os órgãos para venda, abusar de sua inocência. Nos aniversários que o sr, Agostinho comemorava com os amigos, pagava tudo em mesa farta. Agora, quando comemoramos os aniversários dos amigos todos pagam a sua parte. Parece ser que antes havia amigos, mas agora já não, porque não importa quanto têm, todos exigem entre sorrisos que cada um pague a sua parte. Mais do que justo, é, reconheço, mas é também um sinal de ausência do dividir, compartilhar e uma ironia, porque parece que tudo se divide. Já não encontro o Senhor Agostinho pelas ruas da vida. Procuro e não encontro. Os que ainda existem não se mostram nem agem assim porque têm medo de serem confundidos com os outros, os que caminham sobre esteiras do mal que deslizam sem lhes ouvirmos os passos. Desapareceram também os termos “senhor” e “senhora”, agora substituídos por “ele” ou “ela”, para que não se qualifique por engano o que não passa de ser ele ou  ela e não são definitivamente um senhor ou uma senhora. Também já não há os que ajudem os senhores Agostinhos em seus últimos momentos, porque os filhos que deveriam cuidar deles se ausentaram, e depois dos gastos com o funeral, apareceram para agradecer, levaram as ultimas roupas do defunto e nem perguntaram quanto custaram as despesas com médicos e o funeral.

Não encontrei aquelas pessoas que recebem troco a mais quando compram e o devolvem ao caixa que se distraiu por qualquer motivo. Nem nas ruas quem encontre uma carteira perdida e a devolva intacta no primeiro posto policial para que se encontre o dono. Talvez porque a vida nos mostre dia a dia a sua dureza e tenhamos perdido a confiança nas polícias que nos batem em manifestações, participam de roubos ainda na ativa ou quando dela saem. E nas escolas, bem cedo se aprende que os que parecem nossos amigos podem ser na verdade pequenos vendedores de drogas, ou dos que abusam dos mais fracos fazendo-os passar por vexames dia após dia, em infinito martírio. Alguns vão armados para as escolas e matam. Outros voltam à escola anos depois para matar alunos e professores, frustrados pela decepção de sua imaginação trabalhada até a esterilidade da confiança em si mesmo, confrontada com a realidade dos que seguem o seu caminho com sucesso. Para aqueles, o mundo está completamente errado e eles são os pobres coitados, perseguidos, que deveriam estar na posição dos mais beneficiados por terem sofrido as maiores injustiças, não porque tenham sido mais justos. 

Não encontrei os casados há mais de cinqüenta anos, abraçados, rindo entre si e das coisas que fazem, cercados pelos filhos que os cuidam, os netos que os distraem e dos quais cuidam também de vez em quando. Tinham antes uma idade entre os 50 e sessenta anos e eram avôs, por vezes bisavôs. Agora têm noventa, cem, cento e dez anos, um ou dois filhos, quatro ou cinco netos, ainda caminham e fazem caminhadas, são independentes, os filhos vivem longe, os netos correm pela vida já buscando a sua independência, mas vivem separados, cada um em sua casa, independentes, pessoas que vêem na própria vida o prazer de cuidar de si mesmas, porque seus descendentes lhe exigiam não só o sacrifício da vida, mas como também a entrega da alma, lhe roubavam o tempo de viver.

Em assaltos nas ruas, não há ajuda de uns aos outros, porque o bandido que aparece tem outros á ilharga, todos estão armados, e não há policiais por perto.
Aqueles guardas noturnos que caminhavam com um molho de chaves para abrir as portas a quem tivesse perdido as chaves, acabaram. Já não existem. Muitos deles cooperavam com os amantes do alheio e estes por sua vez descobriram nessa fortaleza de caráter humanitário, uma fraqueza que lhes abria as portas para o vandalismo. E o Estado que paga para que se tenha serviços públicos decentes e grátis, porque todos pagam impostos, estão fechando suas portas aos cidadãos e abrindo-as à especulação da terceirização e da globalização que cobram até em urinóis públicos por entrada, podendo antever-se o dia em que cobrarão por litro urinado.

Procuram-se tipos humanos, instituições cidadãs perdidos todos num mundo que evolui não porque a cidadania fale mais alto e promova as mudanças, mas porque as instituições promulgam atos e agem em total desacordo com os interesses de uma humanidade cativa que sofre e arde como combustível da ambição de uns poucos.

As labaredas chegam aos céus. Não há instituição merecedora que possamos defender, não há amigos que compartilhem, parece não haver cem justos nestas cidades. Quem sabe, nem cinqüenta, ou mesmo vinte. Procuram-se os desaparecidos, quem erre e assuma os seus erros.

Aqueles filmes de Hollywood que nos mostravam um mundo de fé no futuro, a vida amena possível para todos, esgotaram-se e cinemas fecham portas.

De minha parte peço perdão. Somos todos culpados. Somos todos construtores de um novo mundo.

Rui Rodrigues

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Besteirol que dá dó... Acaba com a FIFA


Besteirol que dá dó.

Se afrodisíaco melhora o apetite sexual, asiadisíaco deve melhorar a azia ou a Ásia?  E eurodisíaco aumenta a grana por acaso? É por isso que não acredito nessas coisas. Deveríamos ser mais comedidos ou esfomedidos nesse negócio de dar nomes a torto, direito, curvo e reto... Não sei quem foi o maluco que resolveu chamar de mariscos aos habitantes patudos e conchudos do mar... Acaso se lembraram de dar nome aos terriscos e aos ariscos, por acaso? Deixam tudo pela metade esses sem noção... Terriscos são peludos pequenotes que vivem na terra, e ariscos os penosos que vivem no ar e que fogem voando, menos o urubu que é do Flamengo, ô-ô...

Outro maluco resolveu chamar dentadura à nossa coleção de dentes. Acaso se viu alguma dentamole por aí? Claro e evidente que todos os dentes são duros. Os sem noção não têm noção mesmo... É claro que o “1001”, aquele cara que fica todo dia na banca de jornal do Efrésio, tinha alguns dentes moles que caíram um a um. Então ficou um dente, zero dente, zero dente, e outro dente. Por isso chamam o cara de 1001, mas a não ser ele, não vejo ninguém de dentamole por ai.

A falta de respeito pelos professores é culpa desses sem noção que ficam dando nome errado ás coisas e às pessoas. Vejam só... O que é ser “professor”? Se perguntarem a qualquer aluno eles responderão que professor é aquele ou aquela que ensina alguma coisa... Logo se ensina, deveria ser chamada de “Ensinante” e não professor. Por isso essa falta de respeito, porque os alunos pensam que professor é o anjo mau que largaram na sua vida para lhe dar notas ruins e lhes atazanar a vida. A palavra Professor não nos diz nada e poderia ser qualquer coisa, até uma aranha pestilenta do Xingú.

A língua francesa é muito sensual. Eu escuto por aí. Mas nunca entendi. Acaso a língua portuguesa e a inglesa não são sensuais também, quando cantamos a cantilena do “vamu” lá nas orelhas da parceirada? Esses sem noção estão se referindo à “Fala”, ao modo de falar dos franceses e francesas, sempre fazendo biquinho como quem está beijando. Já a fala árabe e japonesa parece que estão injuriados, xingando até a ultima geração, fulos de raiva. E não deveria chamar-se sensual que esta palavra lembra senso, numa hora em que geralmente perdemos a cabeça.. Deveria ser sexual, por que agita os hormônios e nos provoca vontade de vucovucar, isto é, fazer vuco-vuco...O que não quer dizer que árabes e japoneses não gostem da coisa... Õ-ô...

Tem umas palavras que num dá pra aguentar. Os tártaros eram famosos pela velocidade de seus cavalos e de sua agilidade no cavalgar. E dão o nome de tartaruga àquele animalzinho simpático mas desajeitado, lento como baiano, que quando chega num lugar já não tem ninguém para o esperar?.. E porque chamam de galope a cavalo correndo, se é um cavalo e não um galo? Deveria ser cavalope... E por extensão, elefantelope, burrolope...

Às vezes eles acertam: Entende-se que lençol é um lenço muito grande, mas como mais ninguém usa lenço porque é muito feio assoar-se em público, além de espalhar protozoários, vírus e bactérias por todos os lados, ninguém entende porque se chama lençol. E dizer que a humanidade viveu séculos cheios de décadas com janotas de lenço na lapela que posavam para  fotografias crentes que estavam abafando... Tudo muda se ninguém fica mudo. Tem que falar mesmo, linguar muito. Precisamos de ensinantes que professem a profissão a galope e não a tartarugope.

Já a FIFA cresceu muito e pensa que é dona do mundo... Está na hora de acabar.

Rurodriguix